segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A lei e o terrorismo

Não sei o que dizer da Lei Antiterrorismo ora em discussão no Congresso Nacional. O projeto, originário do Senado, foi discutido na Câmara e lá sofreu alterações; mas parece não estar agradando a gregos nem a troianos.

Movimentos sociais e militantes de esquerda acusam a lei de ser muito DURA; segundo eles, ela permite considerar como terroristas esses próprios movimentos e as manifestações e protestos em favor dos direitos humanos ou reivindicações sociais.

Já a oposição ao governo e militantes de direita acham que a lei é MOLE demais, pois para estes ela permite que atos violentos e de destruição (tidos em outros países como atos de terror) sejam cometidos sob a alegação de ocorrerem em contexto de manifestações sociais.

Ou ambos os lados têm alguma razão… ou nenhum deles tem. Eis aí o busílis: saber o que é ou não um ato terrorista.

Mas talvez a coisa nem seja assim tão difícil: todos têm sua própria noção do que seja terrorismo.

Terrorismo é aquilo que os outros fazem.


Santarém, PA, 29/2/2016.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Modernidade irlandesa

"Um homem é melhor do que sua origem."

Segundo o historiador Thomas Cahill (*), esta máxima dos primórdios do cristianismo na Irlanda (séculos V a IX) era evocada para afirmar “a primazia do espírito individual sobre noções de sangue e estirpe”.

Modernos, sui generis esses irlandeses dos tempos dos santos Patrício, Brígida, Columba e Columbano!

Pelo menos é a minha impressão, quando comparo tal pensamento com o que vejo nos dias atuais: ao invés de definir-se pelo que é, muita gente prefere fazê-lo pelo que foram seus ancestrais.

Tais indivíduos e grupos, que se consideram tão livres e senhores de si mesmos, deixam-se, na verdade, governar por seus antepassados. E não se apercebem disso.

* CAHILL, Thomas. Como os Irlandeses Salvaram a Civilização. Tradução de José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. (A História não Contada, 1). p. 195.

Santarém, PA, 27/2/2016.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Aprendendo com os antigos egípcios


“O objetivo comum da irrigação forneceu uma força unificadora e certamente contribuiu para a criação final de um estado político em c. 3100 a.C. […]

Quando o rio subia, uma série de canais direcionava a água para essas bacias, de modo que a terra ficava inundada. Então, a água era retida ali para que o lodo que carregava consigo ficasse depositado na terra. Quando o rio recuava novamente, qualquer água remanescente era drenada, e os fazendeiros podiam, então, arar a terra e plantar seus grãos. Era necessária uma organização complexa de mão de obra e dos recursos para construir e manter esse sistema, e os reis devotaram um esforço considerável para assegurar que as represas e os diques fossem construídos, que os canais fossem cavados e que o sistema fosse devidamente mantido. Períodos de colapso político e econômico foram sempre acompanhados da negligência do sistema de irrigação.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito. Tradução de Angela Machado. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011. p. 32. [Grifos meus.]

O trecho acima está de acordo com a ideia geral de que a necessidade de criar e manter um sistema amplo de irrigação, que aproveitasse a cheia anual do rio Nilo, captando e distribuindo melhor e mais amplamente a água e propiciando colheitas mais abundantes, tanto impulsionou a unificação do Egito, há cerca de 5.000 anos, como também passou a depender do Estado sua conservação.

“O Egito é uma dádiva do Nilo”, diziam os antigos, e o aproveitamento de suas benesses dependia da estabilidade do Estado e do faraó.

Qualquer semelhança (ou a ausência dela) com a atual crise de abastecimento de água e de energia elétrica resultante da ação de governos que conhecemos não é mera coincidência.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

In hoc signo vinces!

A discussão parece-me ainda meio fraca, mas já se contesta há algum tempo a presença de símbolos religiosos (geralmente crucifixos) em órgãos públicos no Brasil.

Mas pode um chefe de estado distribuir, às visitas oficiais do País, camisetas de uma entidade futebolística, convertendo-as ilegalmente em símbolo nacional?

Pode ele dar de presente, às mesmas visitas, bandeiras de uma badalada escola de samba - sempre a mesma, aliás?

E que dizer de um secretário municipal que concede entrevista, representando seu município, na sede da secretaria, tendo atrás de si uma parede cheia de objetos com o escudo de um clube de futebol, do qual ele é torcedor?

E assim caminhamos...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

E os gregos falavam inglês...

Não me canso de ser surpreendido pela falta de cultura geral que campeia na televisão brasileira. Nem a TV paga escapa!

Assistindo no canal History 2 a um documentário sobre as Guerras Médicas (ocorridas no século V a.C. entre gregos e persas, estes conhecidos também como medas ou medos), vejo ser contada a famosa façanha do soldado grego que, em 490 a.C., correu mais de 40 quilômetros, do campo de batalha em Maratona até Atenas, para informar que os gregos haviam vencido aquela importante batalha.

Ao chegar a Atenas, gritou “Vitória!”… e caiu morto.

É fato conhecidíssimo; deu origem à prova olímpica moderna chamada Maratona.

Mas a novidade é que o programa do History 2 mostra, para espanto geral, que os gregos daquela época não falavam grego, mas INGLÊS.

Por quê?

Porque o dublador de um dos historiadores entrevistados, ao pronunciar a palavra dita pelo soldado, disse NÁIKE!

Ora, mas esta é a pronúncia do nome inglês Nike, que designa uma marca de produtos esportivos. A palavra inglesa veio da palavra grega Νίκη (transliterada modernamente em caracteres latinos como Níkē). A pronúncia grega era [nike:], com acento tônico no [i] e a vogal [e] alongada.

Era o nome da deusa grega Nice (chamada VICTORIA pelos romanos), divindade relacionada à vitória, força e velocidade. Os romanos, quando usavam o nome grego da deusa, grafavam a palavra como NICE – assim mesmo, com C – e pronunciavam à maneira grega; a grafia romana é, portanto, a forma de origem do nome feminino Nice no português e noutras línguas modernas europeias, com pronúncias variadas. Já nossa palavra vitória – substantivo comum e também nome próprio – veio do nome latino, obviamente.

“Vitória de Samotrácia”, Museu do Louvre, Paris, França.
Foto de Adrian Pingstone. Fonte: Wikipedia.
O nome Vitória designa também as estátuas que representam essa divindade greco-latina, das quais uma das mais conhecidas e admiradas é a Vitória de Samotrácia (cerca de 200 a.C.), atualmente no Museu do Louvre, Paris, França. A figura feminina presente na Taça Jules Rimet, dada ao campeão mundial de futebol desde 1930 até 1970, também era uma representação da deusa Vitória ou Nice.

Que os falantes de inglês pronunciem nike como NÁIKE é problema deles; mas pronunciarmos assim como se fossem os gregos a falar é uma tolice. Ou se diz simplesmente vitória, em português (traduzindo-se o termo grego), ou se pronuncia a palavra grega à maneira grega: NIKE.

O que não é aceitável é sair por aí pensando que todas e quaisquer palavras de outras línguas se pronunciam como as palavras inglesas.

Uma sugestão: Se você não sabe como se pronuncia uma palavra estrangeira, seja natural e pronuncie-a como se fosse palavra portuguesa ou o mais próximo disso; não há demérito nenhum em assim proceder. Ninguém é obrigado a saber palavras de outras línguas.

Mas não leia, não pronuncie palavras espanholas, francesas, italianas, gregas etc. como se fossem inglesas. Isto pega mal.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

De verbis linguae lusitanorum

Era o orgulho da família. Como falava bem a língua dos gringos! Que fluência! Dava gosto de ver quando “enrolava a língua” com os estrangeiros.

Sim, tinha valido a pena apertar o orçamento para pagar todos aqueles semestres de cursos na escola de ______*, complementados por horas e horas de filmes e muita música!

Os tropeços vinham apenas na hora de conjugar os verbos… do português.

Afinal de contas, por que uma língua precisa de um tempo verbal estúpido como o futuro do subjuntivo?

* Acrescente-se aqui o nome de qualquer língua (mas geralmente se trata do inglês, é claro – ou of course).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Pílulas de inglês

Não se deixe influenciar por propagandas enganosas de escolas de inglês ou outros idiomas: se você está lendo isto e não fala outra língua além do português, você até poderá aprender outras línguas, mas não aprenderá nenhuma delas da mesma forma por que aprendeu o português.

Por quê?

Porque, quando somos expostos, após o nascimento, à língua materna (no nosso caso, o português), desenvolvemos também, concomitantemente, a linguagem e formamos nosso aparelho fonador (o conjunto de órgãos envolvidos na fala, incluindo-se o cérebro, obviamente).

A linguagem é uma faculdade inata do ser humano, mas não se desenvolve (ou não é adquirida) sem que a criança esteja exposta a uma ou mais línguas, pois a exposição à(s) língua(s), desde os primeiros dias após o nascimento, é que ativa os mecanismos psicofísicos da linguagem.

Ao sairmos da infância, nosso aparelho fonador já está formado e ajustado à(s) nossa(s) língua(s) materna(s); depois disso, ao aprendermos outra(s) língua(s), nosso cérebro tenta ajustar, “casar” os fonemas e a gramática da(s) nova(s) línguas àquilo que já temos na mente. É o que gera o sotaque de língua estrangeira – quanto aos aspectos fonético-fonológicos, é claro.

Por isso a melhor idade para aprender línguas é a infância; depois dessa idade, dificuldades e sotaque são inevitáveis – a não ser que se trate de um dos Super-Humanos de Stan Lee ou um(a) Language Boy ou Girl da Legião dos Super-Heróis.

É claro que um adulto pode aprender línguas estrangeiras, variando a velocidade e facilidade de aprendizado, assim como a agilidade na(s) nova(s) língua(s), de acordo com vários fatores, tanto pessoais quanto externos; mas jamais poderemos aprender novas línguas, depois da infância, como se crianças ainda fôssemos.

Reconquista ibérica

Em mensagem recente, o Estado Islâmico (também conhecido como EI, Isis ou Isil) ameaçou invadir Portugal e Espanha para “reaver” aqueles territórios, conquistados em 711 pelos muçulmanos e ocupados, total ou parcialmente, até 1492.

Já vi mais de uma vez, na Internet, pessoas sugerindo que a Ibéria deveria ser “devolvida” aos árabes.

Que tolice descomunal! Devolvê-la a quem e por quê?

Então não havia ninguém lá quando os exércitos comandados por Tarik invadiram a península? Não estavam lá os descendentes dos ibéricos, fenícios, cartagineses, gregos, celtas, romanos e visigodos, chegados lá antes?

Ou será que a Ibéria era sem forma e vazia, e o espírito de Deus pairava sobre as águas do Ebro?

Aliás, os romanos são ancestrais também dos franceses, italianos e romenos; os visigodos são primos dos ostrogodos, ancestrais dos alemães. Por que não repartir Portugal e Espanha entre França, Itália, Romênia e Alemanha?

A população ibérica de hoje é, também, descendente de árabes que lá permaneceram após a conquista gradual dos reinos árabes, califados e taifas, pelas monarquias cristãs.

A combinação de politicamente correto equivocado, coitadismo extremado, consciência pesada e desconhecimento da história resulta em ideias estultas como esta de “devolver” as Espanhas aos povos muçulmanos.

E muita gente ainda dirá que o Estado Islâmico está certo em “reivindicações” desse tipo.

Furando a fila

Não importa o lugar aonde se vá: se há uma fila, sempre há gente querendo furá-la!
É nas pequenas coisas, é nos detalhes do cotidiano que se identificam os sintomas do mal que aflige uma civilização.

Da Cisplatina ao Uruguai

Nos últimos tempos, com tantas alusões a José “Pepe” Mujica, ex-presidente uruguaio, vem-me a seguinte indagação:

Como seriam as coisas se o Uruguai (então chamado Cisplatina) tivesse permanecido como província brasileira, sendo hoje um de nossos estados?

A Cisplatina/Uruguai estaria em tão boa situação agora, em comparação conosco? E o Brasil estaria melhor, pior ou na mesma?

A história não é o domínio do “se”, mas é coisa para pensar, não acham?

Tronos sobre rodas

Pompa e majestade, poder e controle.

Um trono posto bem na frente de um volante.

É por isso que muitas pessoas, quando a conduzir seus carros, se sentem como reis ou rainhas das pistas…

Se o lar de um homem é seu castelo, o carro é seu tanque de guerra!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Podia ser a gente, amiga...


A resposta ao texto da mensagem ao lado poderia ser:

"E você não sabe usar a pontuação, amiga, pois faltam a vírgula depois de nadar (a palavra amiga é vocativo) e o ponto final."


A palavra em função de vocativo sempre vem acompanhada de vírgula; neste caso, a vírgula se põe antes.


Então:


"Podia ser a gente, mas você não sabe nadar, amiga."


Saiba mais AQUI sobre o vocativo e a pontuação que deve acompanhá-lo.

Santarém, PA, 4/2/2016.

Triplex ou tríplex?

Com as denúncias de irregularidades na aquisição do apartamento de três pavimentos mais famoso do Brasil, vem a dúvida, inclusive na imprensa: é apartamento triplex ou tríplex? Palavra oxítona ou paroxítona?

A solução da dúvida é simples, mas nem todos a conhecem.

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (também conhecido pela sigla VOLP) é uma publicação da Academia Brasileira de Letras, que, desde o início do século XX, quando se deram as primeiras tentativas de reforma da ortografia portuguesa, cuida do registro e fixação da ortografia oficial das palavras no Brasil.

Concordemos ou não com isso (eu mesmo não concordo, pois acho que tal missão deveria estar a cargo de uma comissão nacional de notáveis das universidades e instituições culturais, inclusive da ABL), trata-se de uma missão dada à Academia Brasileira por força de lei; embora seja uma ONG, a Academia Brasileira executa essa tarefa a pedido do Estado.

Não se trata de dicionário: o VOLP é uma lista de palavras, apresentadas com sua grafia oficial e informações sobre classe gramatical (substantivo, adjetivo, verbo etc.) e flexão (um gênero, dois gêneros, dois números etc.). Assim, a forma apresentada no VOLP é a oficial e que deve ser usada.

Como saber, por exemplo, se a grafia jiló está correta, ou se esta palavra é grafada com G? Basta procurar no VOLP; na edição eletrônica é só digitar a palavra e, se estiver registrada, aparecerá com seus dados. No VOLP aparece apenas jiló, o que significa que se grafa com J, não com G; o mesmo vale para chuchu (não é com X). Já a palavra morsegão está lá (não é o mesmo que morcegão, aumentativo de morcego).

Outro caso: Apesar de largamente usada, a palavra mussarela não se encontra registrada no VOLP; as formas lá encontradas são muçarela e mozarela, as únicas oficiais e que devem ser grafadas.

Buscando no VOLP eletrônico a forma triplex, encontramos o vocábulo oxítono e o paroxítono, o que significa que ambas as formas são corretas, podendo ser usadas sem medo de errar; o mesmo vale para o par formado por duplex e dúplex. (Prefiro as formas oxítonas.)


Triplex/tríplex e duplex/dúplex são vocábulos pertencentes a mais de uma classe: são substantivos, adjetivos e numerais, mas são invariáveis, pois não têm flexões de gênero nem de número. Vejamos alguns exemplos:
a) Apartamento triplex;
b) Estes apartamentos são duplex;
c) Nossas moradias são triplex.


E outros mais poderíamos citar.

Resumindo: essas formas são corretas, sejam oxítonas ou paroxítonas, têm uso como substantivos, adjetivos ou numerais e são invariáveis quanto a gênero e número.


A sugestão é, optando-se por uma ou outra palavra, manter a coerência no texto, não as misturando sem necessidade.


Para concluir, lembremo-nos de que, se a palavra em questão é paroxítona (tríplex), ela deve ter sinal diacrítico (acento gráfico) agudo sobre a vogal da sílaba tônica, pois se trata de palavra paroxítona terminada em consoante que não é S nem M.


A versão eletrônica do VOLP está disponível gratuitamente aqui: http://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario.


Santarém, Pará, 4/2/2016.