domingo, 4 de maio de 2014

O rapa, as melancias e a milagrosa pomada do peixe-boi

Há cerca de 25 anos, eu era office-boy e via muitos camelôs de São Paulo, nas ruas e dentro dos trens da CBTU e antiga Fepasa (atual CPTM), vendendo a conhecidíssima pomada supostamente feita com a banha do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis). Os pregões dos camelôs variavam pouco, divergindo a partir do mesmo mote:
“Olha a pomada do peixe-boi da Amazônia! Cura reumatismo, cura artrite, artrose, cura frieira, micose, hemorroidas, dor no pescoço, bico-de-papagaio, torcicolo... É cicatrizante, passa um pouquinho e pronto! Olh’a pomada do peixe-boi!”
As latinhas, pouco mais largas do que uma moeda de 1 real, vinham em caixinhas de cor vermelha ou amarela. Os vendedores ambulantes andavam com sacolas cheias delas e vendiam muito, ao que parece.

Fonte: www.institutobotocinza.org.br

Fonte: www.objetosdecena.com.br

Nunca vi naquela época nenhum tipo de fiscalização sanitária contra esse produto suspeito; apenas os fiscais dos trens ou a Polícia Ferroviária é que apreendiam as mercadorias, que depois sumiam não se sabe para onde. Diga-se o mesmo dos fiscais da Prefeitura – os rapas, que apareciam de repente e rapavam tudo dos ambulantes que não conseguiam evadir-se a tempo, após ouvir o berro característico e bem conhecido do povo:
“Rapa! Olh’o rapa!”
Alguns camelôs com ponto mais ou menos fixo expunham suas mercadorias sobre encerados ou lençóis com cordinhas de varal atadas às pontas. Quando chegavam os rapas, era só puxar as cordas, jogar o pacote sobre os ombros e... sebo nas canelas!
O que revoltava a muitos ambulantes era o fato de que as perseguições foram mais intensas durante o mandato de certo governante que é, ele mesmo, filho de um ex-camelô...
Um parêntese: Meu pai conta que certo dia, um pouco depois de chegarem a São Paulo, em fins da década de 1950, ele e um irmão comiam melancia em fatias junto à banca de um típico vendedor de frutas, como estes das fotos:

São Paulo: Rua 25 de Março e Ladeira Porto Geral. Foto: Hildegard Rosenthal, década de 1940.

São Paulo: Bairro da Liberdade. Foto: Sueli Gutierrez (mulheresdavez.blogspot.com.br).

Como bem o sabem os paulistanos e os visitantes da capital paulista, estes ambulantes são comuns em São Paulo: vão para lá e para cá com seus carrinhos, ou posicionam-se num ponto, e vendem frutas cortadas, melancia e abacaxi, principalmente. As fatias são postas em saquinhos (as de abacaxi) sobre blocos de gelo, e o freguês come ali mesmo ou compra “para viagem”. Alguns, antigamente, até ofereciam uma faquinha ao cliente, para cortar a melancia enquanto a comia – o comerciante corria riscos, inclusive o de que o cliente gostasse da faquinha e a levasse como brinde...
Mas, como dizíamos antes... Meu pai e meu tio comiam melancia, quando se ouviu o grito: “Rapa!” Uma multidão corria com carrinhos, pacotes, banquinhas com pentes, espelhos e outras bugigangas a cair... O fruteiro tentou correr, mas era tarde demais: foi pego pelos rapas. Meu pai tinha corrido e duma esquina via o carrinho do coitado do homem ser lançado sobre um caminhão da Prefeitura de São Paulo, que depois partiu cheio de mercadorias apreendidas.
Meu pai não tinha pago as frutas. Um tempo depois, passando pelo mesmo local, lá estava o mesmo fruteiro, com um carrinho (o mesmo?), vendendo suas fatias de melancia e abacaxi. Meu pai achegou-se, pediu uma fatia de fruta, comeu-a, e na hora de pagar, perguntou:
– “Lembra daquele dia em que levaram seu carrinho aqui mesmo nesta esquina? Eu e meu irmão comemos melancia, mas não tivemos tempo de pagar por causa do rapa. Agora quero pagar também aquelas.”
O fruteiro, espantado, arregalou os olhos e agradeceu:
– “Meu Deus do Céu! Obrigado! Só mesmo um cearense para lembrar de pagar uma dívida dessas...”
Voltemos ao peixe-boi e sua banha que vira(va) pomada. Como sabemos, apesar de protegido por legislação federal, o peixe-boi está em risco de extinção, e as causas são várias, como a caça, a morte em redes de pesca, a poluição, a redução do habitat. Filhotes são encontrados sem as mães e levados a centros de estudos, como o Inpa e o Museu Goeldi, mas mesmo que sobrevivam, é difícil readaptá-los à vida selvagem.
Segundo um estudo da Universidade Santa Cecília – Unisanta, em parceria com o Ibama, verificou-se que a tal pomada milagrosa não tem nada do peixe-boi: é apenas vaselina, talvez com corantes e aromatizantes. Ainda que a pomada não seja feita de peixe-boi, sua existência contribui indiretamente para a caça desse mamífero, pela suposta capacidade curativa de sua gordura.
Seja como for, a venda continua, embora – parece-me – já não se venda tanto quanto antes, talvez um efeito da maior quantidade de informação disponível hoje sobre pseudomedicamentos como este.
Por isso, se lhe oferecerem esse milagroso e glorioso produto da esperteza tupiniquim, recuse, pois além de evitar perder dinheiro e tempo com algo que não funciona, você estará, ainda que de forma indireta, contribuindo para a sobrevivência do peixe-boi amazônico, animal-símbolo da Amazônia e também do Brasil.
P. S.: Para terminar, acrescente-se que a palavra peixe-boi é um substantivo composto, formado de dois substantivos também variáveis, peixe e boi; portanto, o plural de peixe-boi é peixes-bois, pois ambos os elementos que formam o composto são passíveis de receber flexão de número.
Curiosa é a forma usada para designar a fêmea do peixe-boi: peixe-mulher é o nome indicado nos dicionários, mas talvez o nome seja restrito à fêmea do peixe-boi-marinho. O plural é, obviamente, peixes-mulheres.
Um dos nomes por que é conhecido o peixe-boi-da-amazônia é guaraguá, nome que veio do termo tupi yguaraguá, designação do peixe-boi naquela língua indígena.

Santarém, Pará, 4/5/2014. Editado em 8/9/2015.

20 comentários:

  1. Eu sou Larissa, nunca havia ouvido falar da banha do peixe-boi, até estar no trem e ver um senhor gritando a mesma frase citada a cima em seu artigo (“Olha a pomada do peixe-boi da Amazônia! Cura reumatismo, cura artrite, artrose, cura frieira, micose, hemorroidas, dor no pescoço, bico-de-papagaio, torcicolo... É cicatrizante, passa um pouquinho e pronto! Olh’a pomada do peixe-boi!”), interessei-me pelo produto, não sei bem ao certo o porque mas, todo mundo do vagão estava comprando e a minha curiosidade foi maior, o produto custava 2 reais, e veio na mesma caixinha descrita anteriormente. Então estava fazendo uma pesquisa sobre, para saber se poderia ou não usa-lo, dores nas costas são frequentes em minha vida. O título do seu artigo me interessou muito, e mesmo não fazendo parte do meu objetivo nas pesquisas li até o final, estou ciente que gastei 2 reais a toa, mas não me arrependo pois, se não, não haveria encontrado essa história que me interesou muito.
    Parabenizo-lhe pela otima escrita e divertimento do contexto, principalmente pelo parêntese sobre os vendedores de frutas que costumam trabalhar nos mesmo locais nos centros de São Paulo (frutas muito boas a proposito). Despesço-me com um abraço!

    Atenciosamente,

    Uma leitora (fã).

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  2. Obrigado, Larissa, por seu comentário; fico feliz de que tenha gostado deste artigo. Volte sempre! Feliz 2015!

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  3. Ótima postagem!

    Cheguei a esta postagem por causa da polêmica recente com as famosas pílulas que curam todo tipo câncer. Um dos críticos citou a cartilagem de tubarão, que me fez lembrar da santa pomada por associação.

    Nos anos 1990 a praça José de Alencar era o ponto de encontro de meus pais para fazerem as compras do mês no Centro de Fortaleza. Enquanto minha mãe e eu esperávamos meu pai chegar, nós acompanhávamos as apresentações dos artistas populares, dos pregadores e dos produtos milagrosos vendidos lá. Dentre os produtos estava a pomada do peixe-boi da amazônia. Existia também a pomada do peixe-elétrico, que parece ter sido fabricada pelas mesmas pessoas. Na época fiquei impressionado quando os vendedores mostraram uma enguia numa bacia d'água.

    Obrigado por reavivar essas lembranças!

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    1. Obrigado, Fábio Santos de Lima, por seu comentário! Volte sempre!

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  4. No sul do Brasil, ainda vende muito bem, agora mesmo estou com uma "latinha" na mão.

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  5. Ate hoje são vendidos essas pomadas nos vagão do trem do Calmon Vianna ate o brás. E eu já fui vitima perdi 5 reais....Mas valeu pela dica....

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  6. De fato, essa pomada continua a ser vendida em muitos lugares do Brasil. Mas ela não funciona. Obrigado pelos comentários, Anônimo e Jean Lima. Voltem sempre.

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  7. comprei uma agora a pouco na ervanaria, aqui Em Caxias do Sul, me falou que era muito bom para curar feridas, comprei kkkkkkkkkkkkk 2 reais, ainda não passei no ferimento, pois vim olhar, e achei isso, . agora fiquei na duvida ,, um abraço a todos..

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    1. Obrigado, Vilson Todero, pela visita e comentário.
      Não sou farmacêutico, mas de acordo com o que descobri pesquisando, não há comprovação da eficácia dessa pomada.
      Sugiro que procure um profissional da área. Até!

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    2. Bom para alguma coisa essa pomada me serviu, há anos tinha um olho de peixe na palma da mão, comecei aplicar o produto e não é que sumiu...Então pra alguma coisa serve sim. Valeu

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    3. O que impressiona é ver tamanha insensibilidade! Com toda tecnologia atual... comprar um produto, que TALVEZ tenha vindo do SACRIFÍCIO DE ANIMAIS em risco de extinção, que talvez valha a cura de ferimentos insignificantes, é no mínimo desprezível e retrogrado... estamos no século XXI... VASELINA PRA ELES!!

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    4. Tenho dúvidas quanto à eficácia dessas pomadas. Seja como for, o peixe-boi está ameaçado de extinção e caçá-lo é crime.

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  8. muito boa essa pomada,tanto a do peixe boi e peixe elétrico,funciona mesmo. já uso á muitos anos,não existe nada melhor

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    1. Tem certeza de funciona mesmo? Respeito sua opinião, mas tenho minhas dúvidas...
      Obrigado pela leitura e comentário.

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  9. Bom dia, são em torno de 03:30 da manhã e cá estou eu que perdi o sono lendo seu brilhante artigo. Gostei da forma com escreve, descreve várias informações sem perder o foco nem sair do assunto, é prático e bem humorado seu texto, parabéns. Mas enfim... voltando à pomada do pobre peixe boi, vejam como ela está popular e disseminada pelo Brasil, não se deteve apenas à região Norte pois moro no interior do Paraná e ela apareceu por aqui. Meu pai tem um boteco na parte central da pequena cidade de Pinhão-Pr,e, quase que todas as pessoas que por ali passam acabam chegando uns para tomar um traguinho de cachaça, outros para comer um tira gosto,pitar um cigarrinho ou aquele apenas para espiar o movimento da rua e se interar dos acontecimentos da cidade. Penso eu que o vendedor que ali passou deve ser muito bom pois convenceu meu pai a comprar a tal pomada, e, para este botequeiro "abrir a mão" precisa-se de uma lábia muito boa... (risos). A minha mãe xeretando por lá encontrou a tal pomada na gaveta e me veio toda curiosa: "pesquise e me conte para quê serve." E eu atendendo um pedido curioso seu e também meu encontrei o seu artigo.

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    1. Obrigado pela leitura e comentário. Mesmo que a tal pomada seja feita da banha do peixe-boi, sua produção é crime, pois esse animal está sob risco de extinção. Além disso, a eficácia da pomada é discutível; não sou especialista no assunto, mas não encontrei notícias sobre propriedades curativas reais. Volte sempre, Kelly Bueno!

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  10. Olá a todos !!
    Comprei essa pomada aqui em guarulhos/SP a 2 semanas acreditando que ela curaria minha sinusite que é muito forte .
    O vendedor me ensinou a usar dá seguinte forna: colocar 2 quantia como gota numa bacia de água bem morna e inalar por 2 minutos e assim minha sinusite desaparecia , eu acreditei pq sou de Rondônia e sei que muitas ervas e óleos e etc...tem efeitos positivos em prevenção e cura de algumas doenças .
    Enfim KKK...Lendo agora está mateira estou ciente de que ela não funciona e eu gastei apenas 5,00 ainda bem né,que não foi muito RS.

    BjossS a todos, o ideal é ficarmos atentos a tudo antes de usar .😘

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    1. Obrigado por sua leitura e comentário, Ana Patty BT! Volte sempre!

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  11. Obrigado por postar!
    Acabei comprando a dita pomada por um ambulante aqui em Florianópolis, realmente o papo dos vendedores é bom e me trouxe a lembrança os tempos que visitava o centro da cidade com meus pais e curiosos víamos o tal homem fazendo acrobacias, contando histórias e vendendo pra valer a latinha.... show de bola..bons tempos.
    Salve o peixe boi.

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  12. Obrigado pela leitura e comentário. Volte sempre! ;)

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