terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um acróstico para Pedro II

D. Pedro II na Abertura da Assembleia Geral. Tela de Pedro Américo. Fonte: Wikipédia.
Dá-se o nome acróstico a qualquer composição poética cujas letras iniciais dos versos, tomadas em sequência, formam uma palavra ou frase. Trata-se de recurso muito usado, tanto por poetas antigos quanto por modernos – Camões, como não poderia deixar de ser, empregou-o também.

Há variedades de acrósticos em que letras do interior dos versos é que são destacadas das demais no tamanho e/ou forma; em outros, combinam-se letras do início e do meio dos versos. As possibilidades são várias.

Mas o motivo deste texto é outro – ou, mais precisamente, um acróstico em particular.

O dia 2 de dezembro é o aniversário de D. Pedro II (1825-1891), último imperador do Brasil. Sua Majestade, ainda que fosse respeitado por muitos, não deixava obviamente de ter seus desafetos e detratores, os quais se serviam dos recursos disponíveis para demonstrar sua insatisfação com a monarquia.

Em 2 de dezembro de 1868, um irreverente poeta desconhecido, sob o pseudônimo Um Monarquista, conseguiu que um jornal publicasse o seguinte poema acróstico em “homenagem” ao monarca tupiniquim:
Ó excelso monarca, eu vos saúdo!
Bem como vos saúda o mundo inteiro,
O mundo, que conhece as vossas glórias...
Brasileiros, erguei-vos e de um brado
O monarca saudai, com hinos!
Do dia de dezembro o dono faustoso,
O dia que nos trouxe mil venturas!
Ribomba ao nascer d'alva a artilharia
E parece dizer em tom festivo
Império do Brasil, cantai, cantai!
Festival harmonia reine em todos;
As glórias do monarca, as sãs virtudes
Zelemos, decantando-as sem cessar.
A excelsa Imperatriz, a mãe dos pobres,
Não olvidemos também de festejar
Neste dia imortal, e que é fecundo,
O dia venturoso em que nascera,
Sempre grande e imortal, Pedro II.

Vê-se que as letras iniciais dos versos permitem ler, de cima para baixo, a frase O BOBO DO REI FAZ ANNOS – note-se que, à época, a palavra ano era, por motivos etimológicos, grafada com dois enes (por ser proveniente do latim annus, -i).

Segundo Wagner Ribeiro*, o poema causou escândalo, sensação, “sobretudo por ter sido publicado no Jornal do Comércio, sempre governista”. Talvez por isso, apenas, não pela própria composição.

Pois é... Naquela época os recursos eram mais escassos, fazer crítica política era mais difícil e perigoso, mas sempre se arrumava um jeitinho de cutucar os poderosos!

* RIBEIRO, Wagner. Antologia Luso-Brasileira. 12. ed. São Paulo: FTD, [circa 1965], página 26.

Santarém, Pará, 2/12/2014. Editado em 14/12/2015.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A tradição universitária do preconceito


Em sua obra Educación y Lucha de Clases, o psicólogo e professor argentino Aníbal Ponce cita o seguinte trecho de August Messer sobre os estudantes das universidades medievais:
"Um hino da época, de caráter blasfemo, muito popular entre os estudantes ingleses, ressalta muito claramente o caráter da classe a que pertencia o estudante medieval: Deus, tu que hás criado os camponeses para servirem aos cavaleiros e aos estudantes, que puseste em nós ódio a eles, deixa-nos viver às expensas do seu trabalho, aproveitar de suas mulheres e matá-los por fim; pelo nosso senhor Baco, que bebe e levanta o seu copo, pelos séculos dos séculos, amém".
[PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Trad. José Severo de Camargo Pereira. São Paulo: Fulgor, 1962.]
Qualquer semelhança com as práticas violentas e discriminatórias de estudantes de conceituadas universidades brasileiras atuais não será mera coincidência; é tradição de longa data.
Aliás, para quem gosta de manter tradições, este é um prato cheio.
Já eu penso que tradições, principalmente deste tipo, devem ser quebradas. Uma sociedade ou instituição que resiste a mudanças, sob a alegação de conservar tradições, acaba por manter-se esclerosada e rançosa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

São Jerônimo, Padroeiro dos Tradutores

"São Jerônimo" (Hendrick Bloemaert, 1601/1602-1672) - Fonte: www.wikigallery.org

Hoje, 30 de setembro, é dia de São Jerônimo e também Dia Internacional dos Tradutores. 
Por sua tarefa hercúlea de tradução da Bíblia em latim, a partir dos originais em hebraico e grego, São Jerônimo é tido como o patrono dos tradutores. Legou-nos ainda muitíssimos textos, inclusive sobre técnicas de tradução.
Dizia ele que se devem traduzir não as palavras, mas o sentido. Prescrição muito moderna, principalmente quando se sabe que, ainda hoje, há gente querendo traduzir coisas ao pé da letra...
Por isso, se você já leu algum livro traduzido, agradeça aos tradutores, que se põem à sombra dos autores para, com seu talento e a duras penas, pôr os escritos destes ao alcance de leitores de outras línguas.
Obrigado, Jerônimo!

Santarém, Pará, 30/9/2014. Editado em 30/9/2015.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Homem Primitivo

O HOMEM PRIMITIVO

Karolo Piĉ (Karel Píč), 1920-1995
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Dizem
que a poesia é tão antiga quanto a humanidade.
Mas isso é um erro.
Pois de todas as artes
a literatura é a última.

O homem de Heidelberg
parece que ainda não falava.
Sua única poesia era o crepitar do fogo.

O neandertal não conhecia a escrita.

E o primeiro poema do homem primitivo de Altamira
não foi um soneto,
mas um bisão,
desenhado na parede de uma caverna.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Reforma ortográfica radical

Eis que pinta por aí mais uma proposta de reforma ortográfica do português, desta vez de forma radical: querem eliminar o H, o Ç, o SS, o CH, fixar Z como única representação do fonema /z/ etc. Mas tem-se a impressão de que a proposta de reforma ortográfica é movida menos pela vontade de racionalizar a escrita do que pela preocupação com a dificuldade de dominar a escrita em português, sua acentuação gráfica e pontuação. Um resumo da proposta pode ser visto aqui: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/08/comissao-do-senado-estuda-abolir-c-ch-e-ss-da-lingua-portuguesa-4577821.html.
A ortografia do português é resultado de um processo histórico. A língua transformou-se com o tempo, o sistema fonológico reorganizou-se e a ortografia não acompanhou isso.
Escrevemos casa com S porque em latim se escrevia assim, apesar de ter pronúncia diferente; o mesmo se diga de exército, exame, cebola, face, gelo, axila, sintaxe, almoxarifado, alface, gesso, agasalho, camisa e muitíssimas outras palavras de origem latina, grega, árabe, germânica etc. Isto é exemplo de escrita etimológica, isto é, de acordo com a origem das palavras.
Grafamos chama, chapéu e chave com CH porque a pronúncia, até o século XVII (e talvez XVIII), era diferente: o CH do português representava o mesmo fonema do espanhol CH; portanto, nossos ancestrais linguísticos pronunciavam TCHEIRO, TCHAPÉU, TCHAMA, TCHAVE, FATCHADA, CATCHORRO etc. A pronúncia mudou, a grafia ficou. (Em algumas regiões rurais de Portugal, porém, ainda é funcional a oposição entre os fonemas representados por X (como em roxo) e CH (como em chapéu), o que significa que o processo de neutralização ainda se encontra em curso.)
Parece-me esta apenas mais uma proposta radical (como outras que já apareceram) de reformar a ortografia, combinando grafia com pronúncia, sem levar em conta os hábitos linguísticos dos demais países que falam português e as diversas variações decorrentes da posição ou combinatória dos fonemas; além disso, seus proponentes parecem conhecer pouco sobre a dinâmica das línguas em geral ou sobre fonologia, fonética (são áreas de estudo diferentes, apesar de próximas).
A ortografia de uma língua deve abranger todas as suas pronúncias. Todos escrevemos porta, falar, pasta e asma do mesmo jeito, apesar das muitas pronúncias possíveis dos fonemas /r/ e /s/ em português; isto é possível porque nossa grafia, apesar de apresentar elementos etimológicos, é fonológica (não fonética, o que não existe): representamos fonemas, que são modelos mentais sonoros, e não pronúncias, que são acidentais e particulares.
Se vivo estivesse, o mais polêmico gramático brasileiro do século XX, Napoleão Mendes de Almeida, com certeza diria que se trata de mais uma "reforma ortográfica para analfabetos"... Não concordo com todas as ideias de Napoleão, mas considero essa e outras propostas parecidas uma grande imbecilidade – assim mesmo, com C, pois veio do latim imbecillitas; a pronúncia romana era [imbekíllitas], e os dois LL não estão aí como enfeites, pois se trata de consoante dupla, que se simplificou na passagem do latim para o português.
Quem quiser grafar imbecilidade com S, fique a gosto.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Algumas anedotas antigas

Um advogado baixinho chegou ao tribunal para defender a causa de seu cliente. Outro advogado, vendo-o, perguntou quem era ele. Este respondeu. Então o primeiro se espantou:
"Quê? um advogado tão pequeno? Eu seria capaz de metê-lo em meu bolso!"
"De fato", tranquilamente respondeu o outro, "e então em seu bolso você teria mais sabedoria do que na cabeça".
(M. Solovjev)

Dizem que o grego Temístocles casou sua filha com um homem muito bom, mas pobre, "porque", disse ele, "minha filha precisa mais de um homem sem riqueza do que de riqueza sem homem".
(J. Seleznev)

Um sacerdote exigia que Lisandro lhe revelasse seu pior pecado.
"É você ou são os deuses que me mandam revelar minha alma?", perguntou Lisandro.
"São os deuses que lhe ordenam isso!", disse o sacerdote.
"Bem", replicou Lisandro, "vá-se embora daqui; quando os deuses me perguntarem, então eu responderei a eles".
(J. Seleznev)

A um homem que vivia dizendo que a esposa tinha 30 anos, o orador romano Cícero respondeu:
"Isso é verdade, sem dúvida, pois há 10 anos eu escuto você dizer isso."
(J. Seleznev)

In: ZAMENHOF, L. L. (Org.). Fundamenta Krestomatio de Esperanto. 2. ed. Paris: Hachette et Cie., 1905.
Tradução de Júlio César Pedrosa.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Ararate e a arca de Noé

O monte Ararate visto de Khor Virap, Armênia - Foto de Andrew Behesnilian (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ararate)

Reportagem de uma TV, em rede nacional, ao tratar da "Operação Ararate" da Polícia Federal, diz que o nome da operação foi tirado do monte onde teria sido encontrada (?) a arca de Noé.
Que falta de cultura geral!
O monte Ararate é o local onde, segundo a tradição registrada na Bíblia (ver a narrativa no Gênesis VIII, 4), a arca de Noé atracou, após baixarem as águas do dilúvio.
Não consta que a arca de Noé tenha sido encontrada; nem mesmo se pode afirmar que existiu, nem é possível que tenha havido um dilúvio, ainda que local. Portanto, a narrativa do Dilúvio Universal (ainda que muitos não concordem com isso), insere-se no campo dos mitos fundadores. É uma história com objetivo explicativo e/ou moralizante, como muitas das narrativas contidas na Bíblia.
Porém, crendo-se ou não na narrativa do dilúvio, não faz mal nenhum consultar os textos e reproduzir a informação correta, ainda que seja baseada em um mito.
Exemplo de explicação para casos como este: A operação foi batizada com o nome Ararate, que, segundo a Bíblia, foi o monte em que a arca de Noé parou após o Dilúvio.
(O exemplozinho acima é por conta da casa.)
Ao contrário do que muitos possam pensar, a leitura da Bíblia e outros textos não se destina apenas a religiosos; conhecê-los, ainda que superficialmente, é imprescindível para entender nosso passado e nosso presente, pois tais narrativas fundaram a cultura do Ocidente.

Futebol e elitismo


Não sou, nunca fui contra o C. R. Vasco da Gama ou qualquer outro clube de futebol. Mas acho um absurdo um jornalista esportivo lamentar a situação do Vasco da Gama por estar na Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Tal comentário foi dito hoje em rede nacional de rádio, por ocasião do empate ocorrido ontem entre Vasco da Gama e Sampaio Correia.
Sabemos que o Vasco já foi a base de selecionados nacionais; conquistou muitos títulos, nacional e internacionalmente; revelou craques da bola... O futebol brasileiro deve muito ao Vasco. Mas se está na Segunda Divisão é porque não jogou futebol suficiente para continuar na Primeira.
Por que o Sampaio Correia, o CRB, o Madureira, o XV de Jaú, o Cascavel, o Paysandu, o Fast podem disputar as divisões inferiores e o Vasco, o Corinthians, o Atlético de MG, o Internacional do RS não podem?
O pior de tudo é ouvir, todos os anos, que os campeonatos estaduais estão ótimos, excelentes, de acordo com a melhor tradição de nosso futebol... mas apenas quando os clubes "grandes" ocupam as primeiras colocações das tabelas. Basta que o Tupi de Caldas, o São Raimundo de Santarém ou o Passo Fundo estejam acima de um "grande", para que se lamente que o torneio esteja com "baixo nível".
Isso é discriminação e desrespeito.
O futebol continua a ser um dos domínios culturais mais atrasados do Brasil: elitista (apesar de não parecer), machista, violento, além de grande ralo por onde escoam recursos que deveriam ser aplicados em outras áreas.
Convenço-me, cada vez mais, de que o Brasil caminha a passo firme para entrar no Primeiro Mundo... com as 4 patas!

Este texto foi produzido e postado por meio de softwares livres: sistema operacional Ubuntu 12.04; processador de texto LibreOffice 4.2.3.3; navegador de Internet Chromium.
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domingo, 11 de maio de 2014

Yes, nós temos lavanderias!

Lavagem de roupa em algum ponto da cidade de São Paulo por volta de 1900. (In: Denise Bernuzzi de Sant'Anna, Cidade das Águas.)

Os gramáticos conservadores (perdoem o pleonasmo) sempre denunciaram a suposta decadência da língua portuguesa, que, segundo eles, avilta-se, abastarda-se, desmoraliza-se ante os coloquialismos, neologismos e estrangeirismos, no rumo do desaparecimento.
Esses profetas do fim da língua já fazem tal previsão desde o século XVII, pelo menos, denunciando a infiltração de agentes estrangeiros que se revezariam na missão de destruir nosso lusíssimo idioma: castelhanismo, galicismo, anglicismo, sovietismo, tupinismo, africanismo, internetês, todos eles obviamente aliados aos quintas-colunas de sempre: linguagem das ruas, gírias, calões, jargões, incúria do povo, falta de apego à língua pátria, gringofilia etc.
Mas o português não decaiu, muito menos sumiu; o que se observa é sua mudança, sua transformação, obedecendo à dinâmica da própria linguagem, aos limites da própria língua e às tendências trazidas desde o berço – o Latium, Lácio, terra natal do latim – as quais jazem latentes à espera de ser postas em marcha – de fato, algumas transformações de nossa língua são tendências comuns às línguas neolatinas ou românicas, e já ocorreram há tempos no francês, no romeno, no castelhano ou no catalão, podendo ou não estar ocorrendo agora no italiano, no rético, no galego ou no sardo, além do português.
Um exemplo dessas transformações que parecem seguir tendências latentes pan-românicas é o que ocorre com o fonema /λ/, que representamos em nossa grafia por meio do dígrafo LH, como nas palavras velho, alheio, ilha, mulher, alho etc.: o equivalente francês, representado por LL, há muito tempo tornou-se /i/, apesar de não ter havido mudança na grafia. Transformações tais ocorrem também no castelhano ou espanhol, em que o mesmo fonema /λ/ apresenta variantes que se distribuem por todo o domínio hispanófono. As variantes latino-americanas do castelhano são reconhecidas como legítimas; não são tidas como erradas, mas sim consideradas marcas regionais e tão corretas quanto a pronúncia espanhola do fonema grafado LL.
Já o mesmo não ocorre com as variantes regionais do /λ/ no português: só se considera correta a pronúncia [λ], ou seja, o que grafamos como LH, sendo estigmatizadas negativamente – tidas por erradas, portanto – pronúncias como aio, muié ou mulé, veio, maia em lugar de alho, mulher, velho, malha e assim por diante. O tempo mostrará o que ocorrerá com essas variedades de pronúncia: se a situação continuará como está, se serão incorporadas pela gramática normativa como simples variantes e tão legítimas quanto a forma padrão, ou se haverá retração e desaparecimento delas.
Mas o que motivou este texto foi outra coisa. Voltemos, portanto, à vaca fria.
Levei, há alguns dias, uma peça a uma lavanderia de Santarém, e espantei-me quando li na nota de registro do serviço a palavra roll. Estranho... Comentei o fato com a moça que me atendeu; disse-lhe que havia um L sobrando, pois se escreve rol, mas ela nem mesmo entendeu meu comentário.
De fato, causa espécie que alguém do ramo das lavanderias não saiba que a grafia correta da palavra é rol e que, portanto, não deveria haver roll nenhum ali. Pior ainda do que isso é o fato de que a palavra aparece na nota cinco (!?) vezes:


Tanto a palavra portuguesa rol quanto a inglesa roll são de origem francesa, tendo ambas significado de “lista, relação, listagem de coisas ou pessoas; certo número ou série de pessoas”. Mas por que não se traduziu roll para rol?
Alguns usuários desse programa de computador usado para administração de lavanderias talvez tenham percebido o erro crasso, mas nada podem fazer para corrigi-lo, pois é preciso intervir no programa e alterá-lo; mas seu criador deveria saber disso. Supõe-se que tenha nível superior, tendo cursado a área de informática, computação, sistemas de informação ou qualquer outro nome que tenha o curso; antes disso fez a prova do Enem ou o exame vestibular; bem antes disso passou por 11 anos de escola, onde deve ter estudado literatura e ouvido falar de Álvares de Azevedo, autor destes versos:
“É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!”
Ainda que se trate de programa feito no exterior e traduzido em português, não há desculpa para uma gafe dessas. Custa-me crer que alguém que passou por faculdade não saiba, nem mesmo tenha percebido ou desconfiado, que no português não há palavra alguma com L dobrado (LL), por ser algo desnecessário em nossa grafia; causa espanto que a pessoa não tenha tido a iniciativa de consultar um dicionário para procurar a tradução de roll; é inacreditável que nem mesmo lhe tenha passado pela cabeça o fato de que as pessoas lavam roupas desde o início dos tempos – Yes, nós temos lavanderias!, talvez dissesse hoje Carmem Miranda – e que nossa língua tem termo próprio (e até mesmo técnico) para designar uma lista de roupas sujas.
O leitor percebeu, a partir da introdução deste artigo, que não acredito em decadência das línguas e culturas e outras balelas que tais; a ciência da linguagem já demonstrou que isso não existe, o que não me impede de perceber os sérios problemas que nosso sistema de ensino tem apresentado nas últimas cinco décadas, pelo menos, cujas consequências dizem respeito não apenas ao ensino de língua e literatura, mas a todas as disciplinas escolares. Aceitar a dinâmica da linguagem e das línguas não significa condescender com a confusão entre língua culta e língua popular – diferentes e complementares, cada uma em seu quadrado...
O processo de expansão, universalização e democratização da educação no Brasil, além das dificuldades em adaptar-se aos novos tempos, não veio acompanhado da conservação e melhoria de certos padrões de excelência tidos ou almejados em períodos anteriores, quando as escolas públicas eram berço intelectual de cidadãos diversos e até de políticos – discorde-se do que disseram ou escreveram; critiquem-se suas ideologias; condenem-se seus atos públicos; lance-se sobre eles o anátema da História; mas reconheça-se que a formação oferecida aos cidadãos, apesar de restrita apenas a parte da população, era razoavelmente satisfatória, desde que se conseguisse entrar na escola.
Nosso sistema educacional expandiu-se, mas decaiu. Tornou-se um gigante com cabeça miúda e cérebro retardado. Alimenta-se de crianças e cospe todos os anos multidões de jovens e adultos com dificuldades de leitura, escrita, cálculo, sem saber ciência e sujeitas a manipulações diversas (neste quesito não houve muita mudança). É claro que há exceções, devido a causas diversas, incluindo-se muito esforço e apoio da família. Mas que é difícil escapar à fome pantagruélica do sistema, disso todos sabem.
A coisa, sabemos, é muito mais séria do que simplesmente pensar que roll não tem tradução em português. Em artigo já clássico chamado “Sobre o Óbvio”, Darcy Ribeiro, em 1978, atentava para os problemas de nosso sistema educacional, que, segundo ele, nunca esteve em crise, traçando a síntese do fenômeno:
“Em consequência, a crise educacional do Brasil da qual tanto se fala, não é uma crise, é um programa. Um programa em curso, cujos frutos, amanhã, falarão por si mesmos.
Não encontrei arremate mais eloquente para este texto.

Um adendo, para descontrair:
É ela! É ela! É ela! É ela! (Álvares de Azevedo, 1831-1852)
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Língua portuguesa: 8 séculos e cada vez mais jovem!


O Observatório da Língua Portuguesa publicou notícia sobre o lançamento, pelos Correios de Cabo Verde, de um selo comemorativo dos 800 Anos da Língua Portuguesa. O selo foi lançado com a presença de autoridades e artistas de todos os países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
A efeméride é alusiva a um documento redigido em 5 de maio de 1214, época do rei português Afonso II; tal documento é considerado o mais antigo escrito naquela que, mais tarde, iria chamar-se língua portuguesa.
Intrigante...
Nos meus tempos de estudante ainda no colegial/ensino médio –, considerava-se o mais antigo documento em língua portuguesa a famosa Cantiga da Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós, de fins do século XII (entre 1189 e 1198): "No mundo non me sei parelha...". Parece que as coisas mudaram.
O curioso é que a data do fenômeno avançou; quando se estuda um fato, um artefato, uma invenção ou criação etc., geralmente se procura (e sempre se encontra!) uma data mais antiga, para dar mais "velheira" à coisa. Curioso, não? Logo, logo os historiadores vão encontrar outra data de surgimento de nossa língua, talvez a data de publicação d'Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, por exemplo.
No mundo lusófono as coisas parecem andar na contramão!
E ao contrário do que pensam alguns, nossa língua não está em decadência, e muito menos moribunda. Nada disso. Assim como Benjamin Burton, com o passar do tempo ela fica cada vez mais jovem...

Adendo:

Cantiga da Ribeirinha ou da Guarvaia
Paio Soares de Taveirós (circa 1189-1198)

No mundo nom me sei parelha
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós e ai,
mia senhor branca e vermelha!
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia?
Mao dia me levantei
que vos entom nom vi fea!

E, mia senhor, des aquelha
me foi a mi mui mal di', ai!
E vós, filha de dom Paai
Moniz, e bem vos semelha
d'haver eu por vós garvaia:
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós houve nem hei
valia d'ũa correa.

Este texto foi produzido e postado por meio de softwares livres: sistema operacional Ubuntu 12.04; processador de texto LibreOffice 4.2.3.3; navegador de Internet Chromium.

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domingo, 4 de maio de 2014

O rapa, as melancias e a milagrosa pomada do peixe-boi

Há cerca de 25 anos, eu era office-boy e via muitos camelôs de São Paulo, nas ruas e dentro dos trens da CBTU e antiga Fepasa (atual CPTM), vendendo a conhecidíssima pomada supostamente feita com a banha do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis). Os pregões dos camelôs variavam pouco, divergindo a partir do mesmo mote:
“Olha a pomada do peixe-boi da Amazônia! Cura reumatismo, cura artrite, artrose, cura frieira, micose, hemorroidas, dor no pescoço, bico-de-papagaio, torcicolo... É cicatrizante, passa um pouquinho e pronto! Olh’a pomada do peixe-boi!”
As latinhas, pouco mais largas do que uma moeda de 1 real, vinham em caixinhas de cor vermelha ou amarela. Os vendedores ambulantes andavam com sacolas cheias delas e vendiam muito, ao que parece.

Fonte: www.institutobotocinza.org.br

Fonte: www.objetosdecena.com.br

Nunca vi naquela época nenhum tipo de fiscalização sanitária contra esse produto suspeito; apenas os fiscais dos trens ou a Polícia Ferroviária é que apreendiam as mercadorias, que depois sumiam não se sabe para onde. Diga-se o mesmo dos fiscais da Prefeitura – os rapas, que apareciam de repente e rapavam tudo dos ambulantes que não conseguiam evadir-se a tempo, após ouvir o berro característico e bem conhecido do povo:
“Rapa! Olh’o rapa!”
Alguns camelôs com ponto mais ou menos fixo expunham suas mercadorias sobre encerados ou lençóis com cordinhas de varal atadas às pontas. Quando chegavam os rapas, era só puxar as cordas, jogar o pacote sobre os ombros e... sebo nas canelas!
O que revoltava a muitos ambulantes era o fato de que as perseguições foram mais intensas durante o mandato de certo governante que é, ele mesmo, filho de um ex-camelô...
Um parêntese: Meu pai conta que certo dia, um pouco depois de chegarem a São Paulo, em fins da década de 1950, ele e um irmão comiam melancia em fatias junto à banca de um típico vendedor de frutas, como estes das fotos:

São Paulo: Rua 25 de Março e Ladeira Porto Geral. Foto: Hildegard Rosenthal, década de 1940.

São Paulo: Bairro da Liberdade. Foto: Sueli Gutierrez (mulheresdavez.blogspot.com.br).

Como bem o sabem os paulistanos e os visitantes da capital paulista, estes ambulantes são comuns em São Paulo: vão para lá e para cá com seus carrinhos, ou posicionam-se num ponto, e vendem frutas cortadas, melancia e abacaxi, principalmente. As fatias são postas em saquinhos (as de abacaxi) sobre blocos de gelo, e o freguês come ali mesmo ou compra “para viagem”. Alguns, antigamente, até ofereciam uma faquinha ao cliente, para cortar a melancia enquanto a comia – o comerciante corria riscos, inclusive o de que o cliente gostasse da faquinha e a levasse como brinde...
Mas, como dizíamos antes... Meu pai e meu tio comiam melancia, quando se ouviu o grito: “Rapa!” Uma multidão corria com carrinhos, pacotes, banquinhas com pentes, espelhos e outras bugigangas a cair... O fruteiro tentou correr, mas era tarde demais: foi pego pelos rapas. Meu pai tinha corrido e duma esquina via o carrinho do coitado do homem ser lançado sobre um caminhão da Prefeitura de São Paulo, que depois partiu cheio de mercadorias apreendidas.
Meu pai não tinha pago as frutas. Um tempo depois, passando pelo mesmo local, lá estava o mesmo fruteiro, com um carrinho (o mesmo?), vendendo suas fatias de melancia e abacaxi. Meu pai achegou-se, pediu uma fatia de fruta, comeu-a, e na hora de pagar, perguntou:
– “Lembra daquele dia em que levaram seu carrinho aqui mesmo nesta esquina? Eu e meu irmão comemos melancia, mas não tivemos tempo de pagar por causa do rapa. Agora quero pagar também aquelas.”
O fruteiro, espantado, arregalou os olhos e agradeceu:
– “Meu Deus do Céu! Obrigado! Só mesmo um cearense para lembrar de pagar uma dívida dessas...”
Voltemos ao peixe-boi e sua banha que vira(va) pomada. Como sabemos, apesar de protegido por legislação federal, o peixe-boi está em risco de extinção, e as causas são várias, como a caça, a morte em redes de pesca, a poluição, a redução do habitat. Filhotes são encontrados sem as mães e levados a centros de estudos, como o Inpa e o Museu Goeldi, mas mesmo que sobrevivam, é difícil readaptá-los à vida selvagem.
Segundo um estudo da Universidade Santa Cecília – Unisanta, em parceria com o Ibama, verificou-se que a tal pomada milagrosa não tem nada do peixe-boi: é apenas vaselina, talvez com corantes e aromatizantes. Ainda que a pomada não seja feita de peixe-boi, sua existência contribui indiretamente para a caça desse mamífero, pela suposta capacidade curativa de sua gordura.
Seja como for, a venda continua, embora – parece-me – já não se venda tanto quanto antes, talvez um efeito da maior quantidade de informação disponível hoje sobre pseudomedicamentos como este.
Por isso, se lhe oferecerem esse milagroso e glorioso produto da esperteza tupiniquim, recuse, pois além de evitar perder dinheiro e tempo com algo que não funciona, você estará, ainda que de forma indireta, contribuindo para a sobrevivência do peixe-boi amazônico, animal-símbolo da Amazônia e também do Brasil.
P. S.: Para terminar, acrescente-se que a palavra peixe-boi é um substantivo composto, formado de dois substantivos também variáveis, peixe e boi; portanto, o plural de peixe-boi é peixes-bois, pois ambos os elementos que formam o composto são passíveis de receber flexão de número.
Curiosa é a forma usada para designar a fêmea do peixe-boi: peixe-mulher é o nome indicado nos dicionários, mas talvez o nome seja restrito à fêmea do peixe-boi-marinho. O plural é, obviamente, peixes-mulheres.
Um dos nomes por que é conhecido o peixe-boi-da-amazônia é guaraguá, nome que veio do termo tupi yguaraguá, designação do peixe-boi naquela língua indígena.

Santarém, Pará, 4/5/2014. Editado em 8/9/2015.

As aparências enganam...

José Agostinho da Fonseca em 1928.
Fonte: wilsonfonseca.com.br.
As aparências enganam, não poucas vezes.

Em seu livro José Agostinho da Fonseca: o Músico Poeta, em que traça a biografia de seu pai, o maestro, compositor e instrumentista José Agostinho da Fonseca (Manaus, AM, 1886-Santarém, PA, 1945), o escritor santareno Wilmar Dias da Fonseca (1915-1984) conta a seguinte e curiosa história, que, com certeza, deve ter-se passado também com outras pessoas.

O fato ocorreu em Belém, Pará, no início do século XX, quando o futuro maestro José Agostinho estudava no Instituto Lauro Sodré, lá sediado. Num dia de festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, José Agostinho e uns amigos resolveram arrematar alguma das comidas prontas oferecidas em leilão no Arraial do Círio. Nada conseguiram e a fome os apertava. Vejamos, nas palavras de Wilmar, o que sucedeu:
“Um deles sugeriu:
- Vamos comprar sardinha em lata.
O alvitre foi aceito.
Numa das barracas do arraial viram na prateleira uma lata bem maior do que a comum, com um bonito peixe estampado. Perguntaram ao barraqueiro:
- Quanto custa aquela lata?
1$500 [mil e quinhentos réis], é de quilo.
Embrulha, por favor.
Ao sentirem nas mãos o peso e o tamanho do embrulho, comentaram:
- Puxa vida, aqui tem muito peixe!
Adiante compraram pães e num botequim duas garrafas de cerveja gelada. Com os trocados restantes tomaram um trago de vermute.
Uma peixada com uma geladinha ia muito bem, todos concordaram.
Essa extravagância nem o diretor nem o prof. Jerônimo podiam saber. O álcool era-lhes proibido e a estória do bombo ainda estava fresca...
A seguir, arranjaram folhas de jornal e saíram em busca de um local sossegado, por trás do templo. Encontraram-no, exatamente como queriam: uma rua deserta e escura. Lá fizeram da calçada mesa e do jornal toalha. Tudo arrumadinho, acocorados cuidaram avidamente de libertar os peixinhos da apertura incômoda em que se encontravam... Aberta a lata, eles se entreolharam espantados: não era sardinha – era goiabada!”
Fonseca, Wilmar Dias da. José Agostinho da Fonseca: o Músico Poeta. Santarém, Pará: Edição do Autor, 1978.

Publicidade de produtos da Peixe na década de 1950.
Fonte: www.almanaque.blog.br.
A leitura do trecho acima deixa fora de questão que se tratava de uma lata de goiabada produzida pela Fábrica Peixe, grupo industrial que já foi um dos principais produtores de conservas do país. Fundada em Pesqueira, Pernambuco, em fins do século XIX, a Peixe foi uma das pioneiras da industrialização na região Nordeste e chegou a ter unidades em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo; foi premiada no exterior e obteve reconhecimento, mas entrou em declínio. Foi nos anos 1990 comprada pelo grupo italiano Cirio e desapareceu, lamentavelmente.
Mais sobre a Fábrica Peixe.