domingo, 24 de novembro de 2013

Graças a Deus, Zamenhof... e Pelé!

Ou como Pelé, sem o saber, ajudou um brasileiro na União Soviética
O número 75 de Inko, revista da Cooperativa Cultural dos Esperantistas, sediada no Rio de Janeiro, traz interessante entrevista de Fabiano Henrique com o conhecido esperantista brasileiro Amarílio Hévia de Carvalho, conhecido também como Papai Noel de Barra do Garças, cidade mato-grossense – por se vestir de Papai Noel na época do Natal, obviamente. Amarílio é grande admirador do ex-presidente Lula e de Dilma Rousseff, e esteve na posse de Lula (2003 e 2007, reeleito) e Dilma, vestido a caráter.
Veja nº 1992, 24/1/2007

No meio esperantista, Amarílio é conhecido também por suas camisetas, que ele produz e vende em todos os eventos (congressos, encontros, simpósios etc.) de que participa. Tive a honra de conhecê-lo em 1995, quando participei do VII Encontro Sul-Brasileiro de Esperanto (VII-a Sud-Brazila Renkontiĝo de Esperanto) em Campos do Jordão, SP. Naquela ocasião, comprei uma bela camiseta alusiva ao evento, a qual era de ótima qualidade e durou muito tempo. Ainda recebi um brinde: um pacotinho de incenso indiano Padmini, o melhor que já usei até hoje (lembro-me agora de que já faz um bom tempo que não uso incenso...).
As famosas camisetas de Amarílio Carvalho, expostas no refeitório  VII Encontro Sul-Brasileiro de Esperanto (12 a 15/10/1995)

Outro feito de Amarílio Carvalho é seu monólogo Tiradentes, que ele já apresentou, em português e esperanto, em muitos lugares no Brasil, tendo-o apresentado também em Hanói, Vietnã, em 2012, por ocasião do 97º Congresso Universal de Esperanto (97-a Universala Kongreso de Esperanto) ali realizado.
Na citada entrevista, Amarílio fala um pouco de sua vida, de quando ouviu falar da língua internacional esperanto em 1949, aos 16 anos, de seus professores e outros esperantistas brasileiros com quem conviveu, de seu monólogo Tiradentes, entre outras coisas; fala ainda de curiosa experiência que viveu durante sua viagem em companhia do violonista Darcy Villa Verde à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, em 1974.
O episódio deu-se da seguinte forma: Após passar por outras cidades soviéticas, Amarílio chegou a Vilna, capital da então República Socialista Soviética da Lituânia, e lá visitou um esperantista local, em cuja casa ele bebeu vinho, um "delicioso vinho comunista"... e ficou "meio bêbado". Amarílio errou o caminho para o hotel em que estava e perdeu-se no centro de Vilna.
Sentado num banco de uma grande praça, inquieto, meio bêbado e perdido, Amarílio decidiu “fervorosamente orar a Deus e ao santo Zamenhof (o iniciador do esperanto), pedindo uma salvação milagrosa". Nesse momento, apareceu por ali um chofer de táxi, ao qual Amarílio saudou em russo e disse que era brasileiro, usando as poucas palavras que conhecia em língua russa.
O taxista começou a gritar: “Pelé! Pelé! Pelé!” Outros taxistas vieram, gritando o nome do famoso futebolista brasileiro. Depois dos devidos cumprimentos e apresentações  apesar do desconhecimento mútuo da língua alheia  o chofer conduziu Amarílio, bêbado e tremendo, ao hotel.
Será que Pelé sabe que sua fama mundial de jogador de futebol ajudou um esperantista brasileiro perdido na extinta União Soviética?
Se você sabe esperanto, leia a entrevista completa aqui:

O brinde de Amarílio Carvalho tornou-me fã deste incenso.
Fonte: www.mercadolivre.com.br.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Jogo de xadrez

©iStockphoto.com/Bluestocking

Eis que surgem nova Rainha e novo Rei, com seus Cavalos, e ocupam as Torres. Serão substituídos os Bispos, mas os Peões continuarão os mesmos, e jogando no mesmo espaço.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Anedotas sobre Attila József

ANEDOTAS SOBRE ATTILA JÓZSEF

Sándor Szathmári
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Attila József em 1924. Fonte: Wikipedia.
Posso orgulhar-me de ter tido boa amizade com o eminente poeta Attila József.

Boa amizade? Com aquele homem agitado e nervoso que sempre batalhava com todos?

Sim! Justamente por isso sei com certeza que ele me estimava, porque ele sempre discutia, até disputava comigo. Com aqueles dos quais não gostava, ele se portava com uma gentileza glacial, e não os tinha como dignos de uma disputa de ideias.

Não reconhecia nenhuma autoridade. Sem nenhum respeito atacava e refutava seus atacantes e refutadores. A discussão era seu esporte, de que nasciam suas fagulhas do espírito, que ele depois entretecia em seus poemas.

Ocorreu certa vez, em 1933, que eu proferi uma palestra em um clube sobre a crise econômica internacional da época, que então abalara profundamente o capitalismo liberal.

Depois da palestra, muitos dos que ali estavam presentes se juntaram em torno de mim, e começou o costumeiro bate-papo após a conferência, o simpósio extraoficial, quando os interessados faziam suas observações, replicavam ou davam-me indicações sobre o tema.

Attila József também estava lá, mas não se aproximou totalmente de mim. Ficou um pouco afastado, às vezes ouvia a conversa, ia para lá, vinha para cá, e via-se que ele guardava algo digno de ser dito.

Também conjeturei, e de certa forma temi, que ele logo viria, explodiria, refutaria e daria cabo de minhas asserções.

Por fim o grupo de discussão começou a desfazer-se. Dissipou-se o círculo de gente em torno de mim. E então Attila József, com passos firmes e decididos, veio até mim.

— Você é... você é... um bom palestrante!

Disse isso abruptamente, de supetão, de modo jogado, com um descuido meio afetado.

E daí se virou e foi embora. Ele visivelmente se envergonhava de sua fraqueza.

Esse reconhecimento foi, para mim, a maior honra de minha vida. Tão valiosa quanto uma medalha de ouro. Se até ele devia reconhecer-me, então eu devia ser sem dúvida um bom palestrante.

Certa vez ele morou junto com Lajos Nagy, que escrevia prosa. Ambos eram pobres, de maneira digna a escritores de talento. Outro escritor húngaro, László Vajthó, escreveu: “O escritor ou ganha dinheiro ou diz a verdade”. Ora, eles por preferência diziam a verdade e não ganhavam dinheiro. Moravam num quarto em comum.

Certa noite, ao se recolherem para dormir, eles como de costume conversavam. Então entre outras coisas Lajos Nagy disse estas palavras: “... o mar azul...”.

Attila József logo replicou:

— O mar não é azul, é verde!

Mas Lajos Nagy também não era de temperamento fácil. Passou a demonstrar que o mar é, de fato, azul.

Com estas palavras ele acendeu o pavio explosivo. Attila József então citou poetas competentes que cantaram o verde mar.

Em se tratando de citações, Lajos Nagy também não era laico. Citou em dobro muitos autores, de Safo a Jean Cocteau, passando por Byron, cuja poesia fora inspirada pelo azul do mar.

Seguiram-se depois as descrições de marinheiros, conquistadores e cientistas. (Desnecessário até dizer que nenhum deles tinha visto o mar. Como mencionei, eles de preferência diziam verdades.)

Enquanto isso eles já se tinham deitado, mas mesmo assim continuavam esgrimindo. A discussão acirrava-se e, por fim, foi Lajos Nagy que primeiro se cansou.

Para terminar a infrutífera disputa, ele decidiu capitular:

— Você me convenceu — disse tranquilo. — Devo conceder que você tem razão: o mar é, de fato, verde.

Disse “Boa noite!” e apagou a luz.

Attila József calou-se, contrariado. Sentia-se fora de seu elemento vital. Lajos Nagy logo adormeceu, e ele fervia por dentro. Por fim, depois de uns 15 minutos de luta consigo mesmo, explodiram as forças internas dentro dele. Gritou:

— Ei, Lajos!

— Grrr! — acordou Lajos Nagy com um súbito rosnado. — Quê? Que é?

— Mas saiba você que o mar não é assim TÃO VERDE, como você imagina!

Traduzido de:
SZATHMÁRI, Sándor. Anekdotoj pri Attila József. Hungara Vivo, 1967, n-ro 4 (7a jaro), p. 17.
Disponível em: <http://www.autodidactproject.org/other/szathmari_jozsef.html>. Acesso em: 12 fev. 2016.



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A maldição do faraó

Aquenáton, Nefertíti e duas de suas filhas. Fonte: www.arqueologiaegipcia.com.br.

Há algum tempo, numa manhã de domingo, tive a impressão de que havia baixado em um de meus vizinhos o espírito do faraó Aquenáton (ex-Amenófis ou Amenhotep IV).
Tão logo o Sol deu as caras, o vizinho tratou de dar início às homenagens ao disco solar Áton, que a tudo ilumina e abençoa com seus raios, possibilitando a fecundação da terra e do ventre das mulheres, enchendo de leite as mamas das fêmeas para a nutrição dos rebentos, fazendo subir as águas do Nilo, as quais, quando se vão, deixam suas margens cobertas dos nutrientes que levarão a abundantes, fartas colheitas, evitando-se os sete anos de espigas finas e vacas magras preditos por um hebreu de nome Zé.
Mas parece que a incorporação do faraó em nosso amigo tupiniquim não foi bem sucedida. Ao invés do Hino ao Sol, o que se ouviu foi uma procissão de cantos profanos e blasfemos, que nos feriam e ensurdeciam os ouvidos do corpo e da alma! E o danado do felá amazônida não se apercebia disso, enquanto fazia, paralelamente à execução de tais cânticos, o ritual semanal de lavagem de sua carruagem de quatro rodas, que ele julga talvez mais bela que a conduzida por Ramsés II, o Grande, na gloriosa batalha de Kadesh.
O tempora! O mores! Blasfêmia! Anátema! Um grito de horror ecoou por todo o Alto e Baixo Egito, da Quarta Catarata ao Delta do Nilo, de Abidos (ou seria Óbidos) a Alexandria! Juntei minha voz ao coro dos aflitos, rasguei as vestes, vesti-me com um saco e cobri-me de cinza, prostrando-me de rosto ao solo e orando à deusa Ártemis de Éfeso (também conhecida como Diana ou Míriam), pedindo um milagre, um alívio para tal situação. E ela respondeu, enviando-me a musa Euterpe, que me orientou a atacar com o que de melhor se produziu sob a inspiração das Nove Irmãs.
Enquanto lá fora ele ofendia os deuses, dentro de casa eu me defendia...


Disso tudo escapou Aquenáton: tão logo desceu ele à tumba, juntando-se a seus ancestrais, os sacerdotes egípcios de Ámon, em conluio com as autoridades da terra de Kemit, fizeram o país retornar à antiga religião, amaldiçoando e riscando da História o nome e a memória do faraó rebelde e sua família.
Mas a História e a Arqueologia o reencontraram.

Santarém, Pará, 13/11/2013. Editado em 3/8/2015.

domingo, 20 de outubro de 2013

Testes com animais e capitalismo

A cadela Laika, primeiro ser terrestre a ir ao espaço, em 1957.
Fonte: http://www.howlofadog.org/laika-the-dog-a-sacrifice-to-science-on-a-one-way-mission-to-space/

"O justo olha pela vida de seus animais." – Provérbios, XII, 10.
Em 18 de outubro de 2013, muita gente aplaudiu a invasão do Instituto Royal, em São Roque, SP, e o resgate de cães usados em testes por aquela instituição. Não sei se os testes eram feitos dentro da lei ou não, se os manifestantes tinham ou não o direito de entrar em propriedade privada e subtrair de lá os cães... Isto é com a Justiça.
Assim como a maioria das pessoas, não sou a favor desses testes em animais, embora paire a incerteza quanto ao que fazer para substituir as cobaias: não testar nada? Testar apenas em humanos? Testar apenas em ratos, baratas e cobras? (Mas estes também não são animais? Ou são menos animais que os outros?)
Só não consigo entender o raciocínio das muitas pessoas que celebraram o fato como mais uma pancada no CAPITALISMO, como uma grande vitória do SOCIALISMO ou COMUNISMO ou ANARQUISMO etc.! Por quê? Testes com animais só são feitos no âmbito do capitalismo? Será que não há testes desse tipo na Coreia do Norte ou em Cuba? Não cabe aqui discutir qual é o melhor sistema político-econômico (capitalismo/liberalismo ou socialismo/comunismo).
Mas gostaria que alguém provasse, com documentos e elementos seguros, que as extintas União Soviética, Iugoslávia, Alemanha Oriental, Checoslováquia, além dos demais países da então chamada Cortina de Ferro ou outros que foram ou são socialistas (a China ainda é comunista, não?) jamais realizaram testes de qualquer tipo em animais. Se isso puder ser provado, então poderemos dizer que os testes com animais são próprios do capitalismo. Mas acho que não se conseguirá provar isso, e persistirão a hipocrisia e a desinformação de muita gente.
Para os que se esqueceram das aulas de história, um fato: Yuri Gagarin foi o primeiro HUMANO a ir ao espaço, mas não o primeiro SER TERRESTRE. O primeiro ser vivo da Terra a ir lá foi a cadela Laika, em 1957, a bordo do Sputnik II (o Sputnik I não foi tripulado), satélite lançado pelos soviéticos (sim, eles mesmos!). Laika não sobreviveu a mais que algumas horas de viagem; o satélite desintegrou-se ao cair na Terra, após vários meses em órbita do planeta.


Laika antes do lançamento do Sputnik II.
Fonte: http://www.cold-war-sputnik-soviet-space-dog-laika.com/SUMMARY.html
Depois dela foram ao espaço outros cães, esquilos, ratos, até que foi a vez dos chimpanzés. Só foram enviados os primeiros humanos ao espaço depois de se certificarem de que poderiam voltar vivos. O exemplo dos "vermelhos" foi seguido pelos norte-americanos, of course.

O primeiro grande prêmio da corrida espacial foi vencido por um animal, o que lhe custou a vida, como sói ocorrer a muitos pioneiros. Reflitamos sobre isso, e o sacrifício de Laika não terá sido em vão.

Santarém, PA, 20/10/2013. Editado em 8/7/2016.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Memórias da Caserna - I Parte

Escudo do extinto 39º Batalhão de Infantaria Motorizado (39 BIMtz), Quitaúna, Osasco, SP

No último dia 25 de agosto, os meios militares celebraram o Dia do Soldado, efeméride alusiva ao aniversário de nascimento de Luís Alves de Lima e Silva, mais conhecido como duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro e mais conhecida personalidade de nossa história militar. A figura do duque de Caxias é tão emblemática no âmbito militar, que a palavra caxias entrou no jargão militar brasileiro, e depois em nossa língua comum, como substantivo e adjetivo, designando o indivíduo que se mostra cumpridor assíduo, irrestrito, irrepreensível, intransigente de leis, normas, regulamentos, ordens etc. Assim, se alguém é considerado um caxias, é porque segue à risca as normas e procedimentos; o termo, porém, não deixa de ter um traço pejorativo, pois muitas vezes o indivíduo caxias não é muito bem visto por seus companheiros.
Os que me conhecem sabem que sou avesso a todo e qualquer tipo de militarismo – creio que isto é suficiente para que me explique bem. Mas passei pela experiência da caserna, quando servi ao Exército num batalhão de infantaria; assim, traço aqui algumas linhas sobre esse período curto, mas de que não me esqueci.
Há 22 anos, portanto, nestes mesmos dias, eu tinha desfilado no aquartelamento, com meu batalhão, por ocasião do Dia do Soldado, e também por ocasião dos festejos do Sete de Setembro, a principal data militar – em se tratando de paradas militares, é claro. (Os desfiles daquela época ainda se davam na Avenida Tiradentes, região Central da cidade de São Paulo.) Aproveito então o ensejo para contar um pouco do que vi e vivi nos nove meses que passei num batalhão em Osasco, SP, em 1991.
Sou da classe de 1972 (no jargão militar, isto quer dizer que nasci nesse ano) e alistei-me no início de 1990 (ano em que fiz 18 anos, portanto), na Junta de Serviço Militar do bairro do Butantã, cidade de São Paulo; depois compareci, em julho desse mesmo ano, à Central de Seleção 3 – CS3. Cheguei bem cedo, quando o dia amanhecia, como todos os demais alistados. A CS3 situa-se em Osasco, SP, na Avenida dos Autonomistas, ao lado da Vila Militar de Quitaúna e em frente ao Aquartelamento Duque de Caxias, composto, à época, por três organizações militares: o 2º Grupo de Artilharia Antiaérea – 2º GAAAe; o 4º Batalhão de Infantaria Blindado – 4º BIB; e o 39º Batalhão de Infantaria Motorizado – 39º BIMtz.
Ao chegarmos lá, sempre havia um grande grupo de soldados à espera dos conscritos, ou seja, nós que nos alistamos obrigatoriamente para o serviço militar. Os conscritos eram motivo de todo tipo de chacota dos soldados veteranos, que chegavam cedo e aproveitavam para aplicar os costumeiros trotes. Apupado por um grupo de soldados, um conscrito arrastava um cigarro amarrado a um pedaço de barbante, e gritava: “Eu puxo fumo! Eu puxo fumo! Eu puxo fumo, sargento!”. Noutro canto, um grupo observava a fila de conscritos e alguém perguntava: “Quem vai matar o Saddam Hussein? É você, guerreiro? Ou é você?” E outro respondia: “É aquele gordão ali! Vai sentar no colo do bigodudo e ploft!”.
Os que fumavam eram despojados, um a um, de seus cigarros e fósforos, “doados” aos veteranos; quem tinha cabelo comprido era ameaçado de voltar careca para casa; os que usavam brincos (e esqueciam-se de tirá-los antes de comparecer à CS) eram ridicularizados. Postos em fila, olhávamos para a nuca do que ia na frente. “Não olhem para os lados! Curiosidade é ato feminino!” Nossos braços eram examinados, creio que em busca de marcas de agulhas – indício de consumo de drogas injetáveis.
Depois de constrangedores exames médicos públicos e coletivos, em que, pelados e tremendo de frio, nos púnhamos numa fila sob as vistas de médicos e enfermeiros militares, fizemos uma prova de conhecimentos gerais e fomos convocados a retornar em janeiro do ano seguinte.
Lembro-me como se fosse ontem: era 14 de janeiro de 1991 e eu retornava à CS3, apresentando-me mais uma vez para entrevistas e exames... além dos vexames e constrangimentos a que éramos submetidos pelos soldados veteranos. Longa espera, até que fui entrevistado por um sargento.
Ele me perguntou se eu era voluntário para “servir”. Contei minha história: disse que nada tinha contra o serviço militar, mas eu não podia servir, pois trabalhava para ajudar minha mãe, já que meus pais eram separados e eu tinha dois irmãos menores. Disse-lhe que, se eu não fosse necessário para ajudar no sustento de minha casa, eu seria voluntário; naquele momento, porém, minha família dependia também de meu salário.
(Eu de fato não era voluntário; mas, para mim, o mundo militar era uma incógnita. Apesar de não ter nenhuma vontade de seguir carreira militar, eu tinha curiosidade pelo ambiente da caserna; eu queria saber como a coisa funcionava por dentro.)
O sargento – que mais tarde seria o comandante de meu grupo de combate – perguntou:
– “Qual é seu trabalho e quanto você ganha lá?”
Respondi:
– “Trabalho como office-boy e ganho um salário mínimo”.
Ele disse de pronto, na bucha:
– “Então não haverá problema. Aqui também você vai ganhar um salário mínimo; é o valor do salário de um soldado”.
Fiquei mudo. Meu argumento tinha sido desmontado: se o problema era o salário, então estava tudo resolvido – segundo a lógica do sargento, obviamente; eu poderia prestar o serviço militar e receberia o mesmo salário – ou soldo, no jargão militar. Mas o sargento se esqueceu de dizer que os cortes de cabelo e o “enxoval” (falarei disso mais adiante) seriam descontados do soldo.
Voltei duas semanas depois, dia 28 de janeiro. Mais uma fila de jovens com cara de quem não está gostando do que está acontecendo. Mais provocações e humilhações vindas de veteranos. Resultado: havia sido escolhido para servir à Pátria e deveria comparecer na segunda-feira seguinte, 4 de fevereiro, ao 39º BIMtz, ali do outro lado da avenida.
No dia 4 de fevereiro de 1991, bem cedinho, eu e os outros companheiros daquela jornada atravessávamos o Portão das Armas do 39º BIMtz. Formando um bloco, alinhados (um ao lado do outro) e cobertos (um atrás do outro), tentando manter distância equivalente, já éramos instruídos no passo ordinário e cantávamos em coro, respondendo ao sargento:
“Eu sou da nobre arma do coturno e do fuzil!
Eu sou da Infantaria, a melhor arma do Brasil!
Eu sou da Infantaria, a Rainha do Brasil!

 Nesta arma não entra quem quer,
Só quem pode e já é tradição!
Na Infantaria quem cai, cai de pé,
E se cair, levanta com o fuzil na mão!
E se cair, levanta com a vibração!”

“Quando eu morrer quero ir de FAL e de Beretta,
Chegar no inferno dando tiros no Capeta!
E o Capeta vai gritar desesperado:
- Meu Deus do Céu, tire daqui este soldado!
Quando eu morrer, quero um espaço no caixão,
P'ra ir pagando canguru e flexão!
No meu enterro, o meu caixão eu desceria,
Ao som do hino da Nobre Infantaria!”

“O quintal da minha casa
Não se varre com vassoura,
Varre com ponta de sabre
E tiros de metralhadora!”

“Trin-ta-e-no-ve!
Brasil!”
(Continua.)

domingo, 13 de outubro de 2013

Parábola gramático-budista


O velho mestre búdico-gramático ensinava a seus discípulos, ávidos por sabedoria ancestral linguageira, como encontrar o caminho que leva à perfeição glotológica. Dizia ele que tal senda parte do domínio das mais sutis ferramentas idiomáticas, das lexias mais raras e das morfossintaxes mais inusitadas.
Continuava ele, dizendo que essa perfeição é palpável e atingível, ainda que localizada num local indefinido no espaço-tempo. Nesse lugar mítico de contemplação, as letras crescem em abundância, enchendo os campos sem ser semeadas; árvores carregam-se de poemas que se declamam por si sós; chovem palavras; topa-se com poetas e filósofos a cada caminhada; e os livros, após uma noite de desfrute do prazer da primeira leitura, amanhecem como se novos fossem, de conteúdo ainda desconhecido, recém-saídos dos prelos e cheirando a tinta de impressão e couro de encadernação.
Um dos alunos, mais jovem e afoito que os demais, perguntou-lhe:
"Mestre, como encontrar o caminho para esse paraíso?"
O mestre respondeu, pousando o olhar sobre cada um dos alunos:
"Esforçai-vos pela mestria na difícil técnica da acentuação gráfica, e tereis dado o primeiro passo no caminho em direção ao Sagrado Nirvana do Diacrítico Bibliográfico!"
A partir de então, nenhum dos aprendizes se permitiu errar uma só crase...

sábado, 12 de outubro de 2013

Depredar monumentos para quê?

Monumento às Bandeiras (1954) de Víctor Brecheret (1894-1955), localizado no Parque do Ibirapuera, cidade de São Paulo


A reportagem acima mostra a depredação do Monumento às Bandeiras durante um protesto a favor da demarcação de terras indígenas. E contra a História!
Não se pode negar que, desde 1500, muitíssimos crimes (principalmente quando vistos pela óptica dos dias atuais) foram cometidos contra os pobres e outras parcelas indefesas de nossa população. São fatos históricos sobejamente conhecidos. Aliás, a violência contra os índios e outros grupos persiste de várias formas.
Todos sabemos disto, mas... que fazemos para mudar essa situação?
Se formos, porém, considerar válido o ataque a monumentos, não vai ficar muita coisa fora da lista, incluindo-se as igrejas e monumentos religiosos, que podem (segundo essa visão) ser postos na mesma categoria de monumentos como o das Bandeiras.
Qual o próximo passo? Derrubar monumentos em honra de poetas clássicos (Olavo Bilac, Francisca Júlia, Camões, Cervantes), pois sua poesia é tida como "elitista" e afastada da cultura popular? Pôr fogo nos originais da Lei Áurea ou da constituição de 1824? Depredar estátuas do Duque de Caxias ou de Getúlio Vargas? Os que cultuam a memória de Vargas se esquecem (ou fingem esquecer-se) de que ele, entre 1930 e 1945, mandou muita gente para a prisão, inclusive militantes "de esquerda" como Patrícia "Pagu" Galvão ou escritores não alinhados com o governo, como Graciliano Ramos (leiam-se as "Memórias do Cárcere" deste último).
É a mesma lição de Stalin e Ceaușescu, que mandavam apagar de fotos antigas as imagens dos desafetos... até que não sobrava ninguém nas fotografias!
Na verdade, os detratores desses monumentos querem reescrever a história, apagando traços do passado, por serem distintos dos de hoje e opostos a suas ideologias particulares ou coletivas, ainda que tenham razão em seus protestos. Mas as pessoas dessas épocas recuadas (ou não tão recuadas assim) eram diferentes, agiam e pensavam de modo diferente; não devemos imitá-las, mas não podemos apagá-las de nosso passado.
Os bandeirantes não são modelo de comportamento para ninguém dos dias de hoje (tendo ou não sido, de fato, tudo isso que deles se diz; chutar cachorro morto é fácil...). Mas, se vivêssemos em sua época, quem de nós agiria de modo diferente do deles? Creio que poucos de nós, e não "ponho a mão no fogo" nem mesmo por mim...
Embora não se reconheça isso, monumentos como o das Bandeiras, a estátua de Borba Gato e outros são sentinelas da História, a nos lembrar daquilo que fizemos e não devemos repetir.
Lembremo-nos, pois.

Estátua de Manuel de Borba Gato (1649-1718), obra de Júlio Guerra (1912-2001).
Concluída em 1963, situa-se no cruzamento das avenidas Santo Amaro e Adolfo Pinheiro, na entrada do bairro de Santo Amaro, Zona Sul da capital paulista. Ao fundo, outra parte do conjunto memorial, em que se faz alusão a fatos históricos da vila de Santo Amaro, incorporada à cidade de São Paulo na década de 1930.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Uma notinha sobre o Papa Francisco e a língua portuguesa

O Faustão, que todos os domingos enche a tela da TV brasileira, diz que o português não é língua, é código secreto... Pois bem: parece que os argentinos decifraram nosso código!
Não sou católico e não estou acompanhando a visita do papa Francisco ao Brasil, mas ouvi hoje no rádio um trecho do pronunciamento dele; a parte o sotaque, o bispo de Roma falou num português impecável, como há tempos não ouço uma autoridade falar no Brasil.
Não pensem que sou purista da língua; para mim isso é besteira: estudei linguística e tenho consciência das tensões entre conservação e mudança sofridas por toda e qualquer língua, além de conhecer um pouco as tendências de transformação do português (algumas dessas tendências são pan-românicas, ou seja, já vêm do latim e afetam também o francês, o espanhol, o italiano e as demais línguas neolatinas). Todas as línguas têm suas variantes regionais (dialetos, falares), sociais, profissionais, etárias etc., e uma língua-padrão ou culta, em que se redigem os textos oficiais, científicos... É assim também com o português.
Mas os agentes públicos brasileiros (eleitos por voto, escolhidos politicamente ou aprovados em concurso) têm a obrigação de dominar a língua oficial satisfatoriamente, a fim de expressar-se de modo objetivo, claro, cristalino (e, se possível, elegante), adequando-se às necessidades de comunicação com a sociedade e à necessidade de manter, com certa homogeneidade, a linguagem-padrão da administração e do Estado, o que é preciso, entre outras coisas, para o bom êxito do serviço público.
Assim como o código da máquina Enigma foi decifrado - para o bem dos Aliados na II Guerra -, nós já deciframos nossa língua; o de que precisamos é perder a vergonha dela.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Gilberto Dimenstein e a baianidade

Gilberto Dimenstein (Folha de S. Paulo)

Em fins de 2012, no processo de composição de seu futuro secretariado, o recém-eleito prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, nomeou Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura, como secretário de Cultura do município. Juca Ferreira é baiano, e parece que sua escolha como secretário desagradou a algumas pessoas. Em 10 de dezembro, após a indicação de Ferreira, o jornalista Gilberto Dimenstein publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo um artigo, bastante irônico, em que comenta o fato de que certos setores (ou seja, as tradicionais panelas) ligados à cultura na cidade de São Paulo ficaram incomodados com a nomeação de Juca Ferreira. Com o título “Haddad precisa importar um baiano?”, o texto, tão logo saiu a público, foi taxado como preconceituoso e xenófobo, além de muito criticado. Parlamentares defensores dos direitos de minorias se imiscuíram no assunto, chegando um deles a dizer que se tratava de preconceito antinordestino “dos paulistas”: de um momento para o outro, 42 milhões de cidadãos foram considerados racistas.
Não vejo discriminação no texto de Dimenstein, e o uso do termo racismo é equivocado e exagerado: a população baiana não constitui uma raça a parte da brasileira (nem os brasileiros são uma raça), logo ninguém pode ser tido como alvo de racismo apenas por ser nascido na Bahia ou em qualquer canto do Brasil. Infelizmente, discriminação regional também existe, e muita, no Brasil, todos sabemos disso (não apenas em relação à Bahia, mas a qualquer lugar); mas daí a ser racismo vai uma distância grande – pequena ou nula, porém, para quem conhece e domina com pouca clareza os termos vernáculos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Algo de podre em Copenhague – ou será que Andersen escrevia em inglês?

Hans Christian Andersen em 1869.
Foto de Thora Hallager.
Fonte: Wikipedia.
I. Napoleão Mendes de Almeida, o mais notório e polêmico gramático brasileiro do século XX, tinha como rotina, ao ler os jornais, anotar os deslizes de escrita da imprensa, os quais serviam de mote para sua coluna de muitos anos, "Questões Vernáculas", n'O Estado de S. Paulo. Aliás, o próprio Estadão era uma das vítimas costumeiras do lápis de Napoleão, que não poupava ninguém quando se tratava de corrigir erros gramaticais. Napoleão gostava de apontar principalmente os erros cometidos por “portadores de anel de grau”, ou seja, gente com curso superior – que diria ele, hoje, sobre como escrevem portadores de mestrado e doutorado? Os trechos das reportagens ou artigos, depois de recortados, anotados quanto a seus erros de pontuação, ortografia etc. e xerocopiados, eram distribuídos aos alunos do Curso de Português por Correspondência, que existiu durante 68 anos. Era o material paradidático dos alunos de português.

Passa longe de mim, por vários motivos, a ideia de comparar-me a Napoleão Mendes de Almeida. Apesar de ter trabalhado em seu curso durante sete anos, discordo de muitas de suas opiniões sobre língua, linguagem e gramática, e concordo com outras, que considero oportunas, pertinentes e coerentes. Diga-se, de passagem, que os gramáticos raramente concordam uns com os outros a respeito de todos os pontos de gramática, pois muito do que se diz nos compêndios é fruto da opinião do autor (opinião baseada em interpretações pessoais dos fatos gramaticais), podendo ser contradito por meio de exemplos de autores clássicos: para muito exemplo de autor clássico que abone alguma regra (melhor seria, neste caso, dizer norma, conforme a lição do linguista romeno Eugenio Coseriu), há sempre um contraexemplo de autor clássico a desaboná-la.

II. Não quero imitar Napoleão Gramático, mas não resisti à tentação de também recortar uma nota jornalística para criticar lapsos (?) grosseiros. É por isso que este artigo não é sobre as teorias e métodos de Napoleão Mendes de Almeida ou Eugenio Coseriu, mas sim sobre uma notícia que li no número 16 de Metáfora, revista de literatura, educação e cultura. Na seção Toques, página 8, lê-se que foi encontrado um manuscrito inédito do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen; trata-se de autógrafo de outra pessoa, mas é, segundo especialistas, o primeiro conto infantil de Andersen.

Até aqui, vai tudo bem, obrigado – nada de podre no reino da Dinamarca... O problema começa quando se lê o nome do suposto primeiro conto do autor dinamarquês: The Tallow Candle, assim mesmo, em inglês. Em inglês? Sim, está em inglês o título – mas não deveria estar.
Metáfora, ano II, nº 16, página 8

Muitos poderão pensar: Mas na Dinamarca não se fala inglês? De fato, muitos lá sabem inglês; trata-se de um país altamente desenvolvido (uns diriam civilizado, mas isto está fora de moda, além de ser antropologicamente incorreto), cujo avançado sistema educacional proporciona a seus cidadãos a oportunidade de aprender, já na escola básica, línguas estrangeiras, mais notadamente o inglês – no passado era o francês, língua internacional até a II Guerra Mundial, além do alemão, língua do vizinho poderoso do sul.

Isso me lembra a personagem Macabeia do romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector: na história lemos que nem se passava pela cabeça de Macabeia a ideia de que se pudesse falar outra língua – muita gente, aliás, ao ouvir estrangeiros falando, acha que eles “enrolam a língua”. Um dos vícios mentais dos dias de hoje – partilhado por gente de nenhuma, pouca ou muita instrução – é pensar que, fora da América Latina e da Ibéria (incluindo-se aqui a França e a Itália, por afinidade e contiguidade), todo o mundo fala inglês, menos nós, pobres brasileiros monoglotas e apegados a uma língua emprestada de segunda classe – e muitos ainda entendem a ideia de “falar inglês” como não saber falar outra língua além desta.

Um de nossos mais prestigiados filósofos da cultura popular, que faustonicamente enche a tela da TV em nossas tardes de domingo, afirma que “o português não é língua, é código secreto”, e esta asserção parece ter-se entranhado na mente dos brasileiros, que têm vergonha de sua própria língua.

III. A língua nacional e oficial da Dinamarca é o dinamarquês ou danês, idioma germânico pertencente ao grupo setentrional, do qual também fazem parte o norueguês, o islandês e o sueco (o finlandês, apesar de próximo geograficamente das aqui citadas, não é língua germânica, nem mesmo indo-europeia). Por que, afinal de contas, se na Dinamarca se fala dinamarquês e Hans Christian Andersen compôs sua obra em dinamarquês, fez-se referência ao conto com o nome em inglês? É claro como o Sol: a notícia foi lida em inglês (talvez aqui) e citou-se o nome do conto nesta língua, sem a menor preocupação de saber se o título original é aquele mesmo – é possível ainda que o redator da nota da revista Metáfora nem saiba que há uma língua dinamarquesa. Até se compreende que alguém de pouca instrução não saiba dessas coisas... Mas alguém com curso superior desconhecer essas informações é algo que não se pode conceber. Uma leitura mais atenta e uma consulta mais demorada mostrariam que o nome do texto A Vela de Sebo na língua original é Tællelyset.

A coisa, porém, não acaba aqui. Não sei se Shakespeare tinha razão ao dizer que havia algo de podre no reino da Dinamarca, mas parece que, no Brasil, a palavra Copenhague apodrece... Vira e mexe, ao se noticiar um fato ligado à capital da Dinamarca, faz-se referência a ela como Copenhagen; indagados, os que assim fazem dizem que estão usando o nome original da cidade, e que é este o modo correto de proceder, devendo ser citado o nome em sua forma original.

IV. Santo engano, Batman! – diria com certeza o Menino-Prodígio... São dois grosseiros equívocos numa só explicação. Se nossa língua possui termo próprio para designar país, cidade ou localidade estrangeira, esse é o nome que se deve usar, e não o original. Trata-se de tendência das línguas, que adaptam os termos estrangeiros à sua fonologia, fonética e ortografia, além de morfologia, como ocorreu com todos os idiomas, por isso também com o português: quem reconhece em sinuca e chulipa os originais ingleses snooker e sleeper? Pois é, são o resultado de adaptação fonética e posterior configuração ortográfica.

Outro exemplo: Em português, os nomes hebraicos Shlomo, Shmuel, Shoshannah, Shaul e Gershon assumiram as formas Salomão, Samuel, Susana, Saul ou Saulo e Gérson, respectivamente, e isto não foi sem motivo: estes nomes passaram do hebraico ao grego, deste ao latim e daqui para nossa língua; como em grego e latim não havia fonema correspondente ao hebraico ש (shin, letra que representa o fonema equivalente ao nosso X de xarope ou CH de chapéu), ele assumiu a forma mais próxima, /s/, grafado em grego Σ e em latim S, e assim passou ao português e outras línguas. O mesmo ocorreu com os nomes Jesus e Josué, ambos provindos de Yeshua, variante de Yehoshua.

V. Já tive oportunidade de tratar deste assunto em outros dois artigos publicados neste mesmo blogue (aqui e aqui). Para as principais localidades da Europa (para ficarmos apenas nessa parte do Velho Mundo), o português e as línguas europeias em geral têm formas próprias vernáculas, sem a necessidade de usar as formas estrangeiras; no caso de Copenhague, o deslize é ainda mais grave, pois quem usa Copenhagen diz estar usando a forma original, o que é falso, porque esta é a forma inglesa – o nome da capital da Dinamarca na língua do país, isto é, o dinamarquês, é København! (Para tirar isto a limpo, basta consultar aqui a página sobre essa cidade na Wikipédia em dinamarquês.)

Em português, portanto, devemos usar as formas Copenhague (no Brasil) ou Copenhaga (em português europeu). É sabido que alguns nomes tradicionais, não sei por que motivo, vêm caindo em desuso, sendo substituídos em português, principalmente na mídia, pelas formas originais ou em inglês (que os desavisados julgam ser as “originais”) – daí o procedimento se espalha para o grande público, que não é fã de consultas a dicionários e enciclopédias.

VI. Segue abaixo uma pequena lista com alguns nomes geográficos estrangeiros que costumam aparecer na imprensa, seguidos das formas vernáculas correspondentes (em negrito), que são as que devemos preferir; algumas de fato só se usam em Portugal, mas usá-las não é erro, embora muita gente vá torcer o nariz – na dúvida, sendo possível, de acordo com a necessidade de clareza, prefira-se sempre a forma tradicional:

Amsterdam – Amsterdã, Amsterdão (Holanda)
Bavária – Baviera (Alemanha)
Beijing – Pequim (China)
Belarus – Bielorrússia
Berlin – Berlim (Alemanha)
Bern – Berna (Suíça)
Bonn – Bona (Alemanha)
Budapest – Budapeste (Hungria)
Dublin – Dublim (Irlanda)
Frankfurt – Francoforte (Alemanha)
Geneva – Genebra (Suíça)
Guangzhou, Guangdong – Cantão (China)
Helsinki – Helsinque, Helsínquia (Finlândia)
Jersey – Jérsei, Jérsia (Grã-Bretanha)
Leipzig – Lípsia (Alemanha)
Mainz – Mogúncia (Alemanha)
Moldova – Moldávia
München – Munique (Alemanha)
Nanjing, Nanking – Nanquim (China)
New Jersey – Nova Jérsei, Nova Jérsia (EUA)
New York – Nova Iorque (EUA)
Pennsylvania – Pensilvânia (EUA)
Philadelphia – Filadélfia (EUA)
Roterdam – Roterdã, Roterdão (Holanda)
Shanghai – Xangai (China)
Stuttgart – Estugarda (Alemanha)
Taipei Taipé (Formosa)
Taiwan – Formosa
Tchetchênia – Chechênia
Tokyo – Tóquio (Japão)
Toullouse – Tolosa (França)
York – Iorque (Grã-Bretanha)
Zurich – Zurique (Suíça)

P. S.: Acho que esta noite me baixou o espírito de algum gramático bem brabo. Vou providenciar uma sessão de descarrego com o pastor Marcos Bagno. Só não posso esquecer-me de nossa bíblia: Cours de Linguistique Générale de Ferdinand de Saussure!

Santarém, Pará, 15/3/2013. Editado em 29/5/2015.