terça-feira, 31 de outubro de 2017

A Orgia dos Duendes [poema de Bernardo Guimarães]

A ORGIA DOS DUENDES
Bernardo Guimarães (1825-1884)
I
Meia-noite soou na floresta

No relógio de sino de pau;
E a velhinha, rainha da festa,
Se assentou sobre o grande jirau.


Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia.


Junto dele um vermelho diabo
Que saíra do antro das focas,
Pendurado num pau pelo rabo,
No borralho torrava pipocas.


Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo.


Getirana com todo o sossego
A caldeira da sopa adubava
Com o sangue de um velho morcego,
Que ali mesmo co’as unhas sangrava.


Mamangava frigia nas banhas
Que tirou do cachaço de um frade,
Adubado com pernas de aranha,
Fresco lombo de um frei dom abade.


Vento sul sobiou na cumbuca,
Galo-preto na cinza espojou;
Por três vezes zumbiu a mutuca,
No cupim o macuco piou.


E a rainha co’as mãos ressequidas
O sinal por três vezes foi dando,
A corte das almas perdidas
Desta sorte ao batuque chamando:


"Vinde, ó filhas do oco do pau,
Lagartixas do rabo vermelho,
Vinde, vinde tocar marimbau,
Que hoje é festa de grande aparelho.


Raparigas do monte das cobras,
Que fazeis lá no fundo da brenha?
Do sepulcro trazei-me as abobras,
E do inferno os meus feixes de lenha.


Ide já procurar-me a bandurra
Que me deu minha tia Marselha,
E que aos ventos da noite sussura,
Pendurada no arco-da-velha.


Onde estás, que inda aqui não te vejo,
Esqueleto gamenho e gentil?
Eu quisera acordar-te c’um beijo
Lá no teu tenebroso covil.


Galo-preto da torre da morte,
Que te aninhas em leito de brasas,
Vem agora esquecer tua sorte,
Vem-me em torno arrastar tuas asas.


Sapo-inchado, que moras na cova
Onde a mão do defunto enterrei,
Tu não sabes que hoje é lua nova,
Que é o dia das danças da lei?


Tu também, ó gentil Crocodilo,
Não deplores o suco das uvas;
Vem beber excelente restilo
Que eu do pranto extraí das viúvas.


Lobisome, que fazes, meu bem,
Que não vens ao sagrado batuque?
Como tratas com tanto desdém,
Quem a c’roa te deu de grão-duque?”


II
Mil duendes dos antros saíram

Batucando e batendo matracas,
E mil bruxas uivando surgiram,
Cavalgando em compridas estacas.


Três diabos vestidos de roxo
Se assentaram aos pés da rainha,
E um deles, que tinha o pé coxo,
Começou a tocar campainha.


Campainha, que toca, é caveira
Com badalo de casco de burro,
Que no meio da selva agoureira
Vai fazendo medonho sussurro.


Capetinhas, trepados nos galhos
Com o rabo enrolado no pau,
Uns agitam sonoros chocalhos,
Outros põem-se a tocar marimbau.


Crocodilo roncava no papo
Com ruído de grande fragor:
E na inchada barriga de um sapo
Esqueleto tocava tambor.


Da carcaça de um seco defunto
E das tripas de um velho barão,
De uma bruxa engenhosa o bestunto
Armou logo feroz rabecão.


Assentado nos pés da rainha
Lobisome batia a batuta
Co’a canela de um frade, que tinha
Inda um pouco de carne corruta.


Já ressoam timbales e rufos,
Ferve a dança do cateretê;
Taturana, batendo os adufos,
Sapateia cantando — o le rê!


Getirana, bruxinha tarasca,
Arranhando fanhosa bandurra,
Com tremenda embigada descasca
A barriga do velho Caturra.


O Caturra era um sapo papudo
Com dous chifres vermelhos na testa,
e era ele, a despeito de tudo,
O rapaz mais patusco da festa.


Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
— Viva, viva a Sra. Condessa!...


E dançando em redor da fogueira
vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:


III
TATURANA

Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.


Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.


GETIRANA
Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade

Ao suplício o abade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.


GALO-PRETO
Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.


Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.


ESQUELETO
Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.


Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.


MULA-SEM-CABEÇA
Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.


Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.


Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.


CROCODILO
Eu fui papa; e aos meus inimigos
Para o inferno mandei c’um aceno;
E também por servir aos amigos
té nas hóstias botava veneno.


De princesas cruéis e devassas
Fui na terra constante patrono;
Por gozar de seus mimos e graças
Opiei aos maridos sem sono.


Eu na terra vigário de Cristo,
Que nas mãos tinha a chave do céu,
Eis que um dia de um golpe imprevisto
Nos infernos caí de boléu.


LOBISOME
Eu fui rei, e aos vassalos fiéis
Por chalaça mandava enforcar;
E sabia por modos cruéis
As esposas e filhas roubar.


Do meu reino e de minhas cidades
O talento e a virtude enxotei;
De michelas, carrascos e frades
Do meu trono os degraus rodeei.


Com o sangue e suor de meus povos
Diverti-me e criei esta pança,
Para enfim, urros dando e corcovos,
Vir ao demo servir de pitança.


RAINHA
Já no ventre materno fui boa;
Minha mãe, ao nascer, eu matei;
E a meu pai, por herdar-lhe a coroa
Eu seu leito co’as mãos esganei.


Um irmão mais idoso que eu,
C’uma pedra amarrada ao pescoço,
Atirado às ocultas morreu
Afogado no fundo de um poço.


Em marido nenhum achei jeito;
Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,
Uma noite co’as colchas do leito
Abafei para sempre os queixumes.


Ao segundo, da torre do paço
Despenhei por me ser desleal;
Ao terceiro por fim num abraço
pelas costas cravei-lhe um punhal.


Entre a turba de meus servidores
Recrutei meus amantes de um dia;
Quem gozava meus régios favores
Nos abismos do mar se sumia.


No banquete infernal da luxúria
Quantos vasos aos lábios chegava,
Satisfeita aos desejos a fúria,
Sem piedade depois os quebrava.


Quem pratica proezas tamanhas
Cá não veio por fraca e mesquinha,
E merece por suas façanhas
Inda mesmo entre vós ser rainha.


IV
Do batuque infernal, que não finda,

Turbilhona o fatal rodopio;
Mais veloz, mais veloz, mais ainda
Ferve a dança como um corrupio.


Mas eis que no mais quente da festa
Um rebenque estalando se ouviu,
Galopando através da floresta
Magro espectro sinistro surgiu.


Hediondo esqueleto aos arrancos
Chocalhava nas abas da sela;
Era a Morte, que vinha de tranco
Amontada numa égua amarela.


O terrível rebenque zunindo
A nojenta canalha enxotava;
E à esquerda e à direita zurzindo
Com voz rouca desta arte bradava:


"Fora, fora! esqueletos poentos,
Lobisomes, e bruxas mirradas!
Para a cova esses ossos nojentos!
Para o inferno essas almas danadas!”


Um estouro rebenta nas selvas,
Que recendem com cheiro de enxofre;
E na terra por baixo das relvas
Toda a súcia sumiu-se de chofre.


V
E aos primeiros albores do dia

Nem ao menos se viam vestígios
Da nefanda, asquerosa folia,
Dessa noite de horrendos prodígios.


E nos ramos saltavam as aves
Gorjeando canoros queixumes,
E brincavam as auras suaves
Entre as flores colhendo perfumes.


E na sombra daquele arvoredo,
Que inda há pouco viu tantos horrores,
Passeando sozinha e sem medo
Linda virgem cismava de amores.


In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesia Erótica e Satírica. Rio de Janeiro: Imago, 1992. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000083.pdf>.

Sobre o autor: Bernardo Guimarães nasceu em Ouro Preto, MG, em 15 de agosto de 1825 e faleceu na mesma cidade em 10 de março e 1884. Formou-se em Direito em São Paulo e foi jornalista, professor e juiz, além de um dos principais nomes da literatura brasileira da época. Mais sobre Bernardo Guimarães aqui: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Guimar%C3%A3es>.

Santarém, PA, 30/10/2017. Leia e curta também no Wordpress.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A Velhice

A VELHICE
Jānis Jaunsudrabiņš (1877–1962)
No rosto de quase todas as pessoas, leio um medo disfarçado da velhice. Então eu também começo a pensar sobre este fantasma e procuro algo com que possa compará-lo. Oh, a velhice é muito diversa:
Vejo-a como nuvens distantes acima de minha cabeça! Elas são silenciosas e imóveis, e meio engastadas no azul-escuro. E quero mandar-lhes um alô.
Vejo-a como a paisagem colorida que espera pela neve com a maior das saudades.
Vejo-a como um cardo seco na encosta de um monte. Ali ele permanece de pé e cintila sob a luz do sol de outono, e o vento carrega seus cabelos brancos para além do monte, além do rio.
Vejo-a como uma floresta nua após a ventania. Ela então se mostra heroica, e eu quero ser assim.
Não, a velhice não é nenhum fantasma. Se nós começássemos a vida pela velhice, nós com toda a certeza temeríamos a infância e a chamaríamos por aquele outro nome.
E o que é então a juventude?
Muitas, muitas vezes nós a vemos como um porquinho que, chafurdando, se enlameou até os olhos, mas continua tendo o rabo enroladinho.
JAUNSUDRABIŅŠ, Jānis. La Maljuneco. Trad. Ko So. Norda Literaturo, Jelgava (Letônia), n. 2, K. Strazds (Ed.), 1934.

Traduzido do letão para o esperanto por Ko So; do esperanto para o português por Júlio César Pedrosa.

Notas:
1- O escritor letão Jānis Jaunsudrabiņš nasceu em Selônia, Letônia, em 25 de agosto de 1877; faleceu em 28 de agosto de 1962, na Alemanha. Mais sobre ele aqui (em letão, francês e outras línguas, mas não em português):
2- Sobre a revista Norda Literaturo (em esperanto):
Santarém, PA, 26/7/2017. Leia e curta também no Wordpress.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O separatismo nosso de cada dia

Vez ou outra topamos nas redes sociais com publicações compartilhadas de grupos separatistas, geralmente de São Paulo ou dos estados do Sul do Brasil (Movimento São Paulo Livre, República de São Paulo, O Sul É Meu País etc.). A reação de muitos dos que leem isso é de espanto, perplexidade – afinal, como pode alguém querer separar-se de um país tão “promissor” como o Brasil?!

Os comentários que costumam acompanhar tais postagens invariavelmente acusam haver “racismo”, “preconceito”, “discriminação”, “traição”, “exploração” por parte de tais movimentos contra o resto do País.

Como SP e Sul concentram a maior população de imigrantes eurasianos (portugueses, espanhóis, italianos, alemães, coreanos, japoneses, chineses, árabes, armênios, eslavos e outros) e seus descendentes, acusam-se os habitantes dessas regiões de ter chegado ao Brasil para “matar sua fome” e, agora, “cospem no prato em que comeram”, “viram o cocho”, “querem abandonar o Nordeste” (como se o Brasil consistisse só de três regiões: Sul, São Paulo e Nordeste!), são “nazistas”, “fascistas” e coisas semelhantes.

Há ou não motivos justificáveis que levem habitantes de SP e Sul a querer separar-se do Brasil? No caso do Rio Grande do Sul, sabemos que o movimento separatista local (aliado ou não aos dos outros dois estados sulistas) remonta suas origens à Guerra dos Farrapos (1835-1845). Já em São Paulo o movimento é mais recente, com raízes e simbologia na Guerra Constitucionalista de 1932.

Motivos para separar-se sempre há em todo lugar; e se há também consentimento da maior parte da população da região em questão quanto à independência, não creio que se possa ser contra isso. Aliás, eu mesmo não estou nem aí!

Mas será que esses movimentos independentistas paulistas e sulistas são os únicos do País ou eles apenas têm mais força e evidência do que os outros?

Basta pesquisar rapidamente sobre o assunto na Internet para termos a resposta: há grupos separatistas em quase todos os estados e até no Distrito Federal; aliás, em alguns estados e regiões há mais de um movimento organizado. Não é apenas o Sul que deseja “abandonar o Nordeste”, pois o próprio Nordeste também quer separar-se do Brasil; há um movimento independentista na Amazônia, outro no Rio de Janeiro; também Goiás e Pernambuco desejam evadir-se. Até no Espírito Santo e em Roraima há quem queira deixar de ser brasileiro!

Muitos desses grupos são pequenos e incipientes, mas ganharam fôlego com a vitória do movimento Brexit no recente plebiscito britânico sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, e se espalham por meio da Internet e redes sociais. Fazem barulho e reclamam, principalmente, de impostos altos e corrupção. Em certos casos, eles têm queixas específicas sobre exploração de recursos naturais e “ingerência” do Governo Federal em certos assuntos – assuntos estes que, de acordo com a Constituição Federal, são de fato prerrogativas da União.

Já outros grupos parecem preocupados com a dominação cultural exercida pelos grandes centros brasileiros onde se situam os grupos econômicos e de comunicação de maior poder e prestígio – no que, a meu ver, tais grupos têm certa razão, apesar de seu discurso às vezes descambar para o etnocentrismo.

Não creio que algum desses movimentos tenha sucesso, pelo menos em curto e médio prazo; aliás, não vejo possibilidade de um dia o Brasil se fragmentar – a não ser pela guerra. Ainda que nosso país se tenha (con)formado pela violência da expansão colonial, com uma unificação forçada à época da Independência (lembremo-nos da resistência à adesão ao Império na Bahia e no então Grão-Pará), é possível reverter as disparidades atuais. Mas para isso todos teriam de abrir mão de algo, num novo Pacto Federativo: revisão do recolhimento, redistribuição e aplicação de impostos; readequação da representação das unidades federadas no Parlamento (difícil, hein!); talvez a redução do número de parlamentares (o quê?!), para enxugar os gastos com a máquina legislativa; maior liberdade de ação para os estados e o DF, reduzindo-se a área de abrangência da União…

As mudanças necessárias são muitas. Alguém está disposto a discuti-las e fazê-las?

Seja como for, antes de sair por aí xingando separatistas de outros lugares, procure saber se no seu estado também não há algum movimento desse tipo. Talvez você se surpreenda…

Seguem abaixo algumas páginas que encontrei no Facebook de movimentos separatistas brasileiros. Não sei se estão todos aí, pois a certa altura da busca eu me cansei… ;)

Estaduais:


















Regionais:











Santarém, PA, 24/7/2017. Leia e curta também no Wordpress.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ressurreição de Ícaro [poema de Hermes Fontes]

RESSURREIÇÃO DE ÍCARO
Hermes Fontes (1888-1930)

Herbert James Draper, “The Lament for Icarus” (1898).
Fonte: Wikipedia.
Ícaro pôs o olhar no Azul infindo
e no esplêndido sol que a fímbria azul redoura
ao claror da alvorada
e enche toda a amplidão do céu, ao Meio-Dia.
O tempo estava lindo.
E a terra, de ouro fúlgido toucada,
estava linda, estava encantadora.

Dir-se-ia
do Sol, que está fulgindo
à Terra, ingênua, que se adorna e touca,
ser alguém que está rindo
a rubra, a escandalosa gargalhada
do Orgulho e da Ironia.

O disco astral era radiosa boca
jorrando risos de ouro para o mundo:

Ícaro se encontrou trêmulo e frio,
o homem sentiu-se inútil e infecundo.

E, entendendo o desdém por desafio,
consigo mesmo concentrou-se, a fundo.

Olhando o voo às aves e aos insetos,
fechou os olhos para o seu destino:
– Teve a vertigem dos alucinados…

E previu novos céus, além do céu visível,
repletos de astros múltiplos, repletos
de orbes irrevelados.

Mas, ao querer tocá-los – impossível!
Sentia os pés chumbados
à gleba do Planeta,
à lei do destino…

Sob o anátema, ao peso da grilheta,
Ícaro se julgou deveras pequenino.

Veio o desejo cego, a ideia ousada
de pôr aos ombros um par de asas. Veio
dessa ideia arrojada
a pleno espaço, em meio à luz, em meio
à ondulação aérea inavegada,
em meio aos imprevistos e aos mistérios
sidéreos.

O homem levara à Abóbada encantada
o seu grito de guerra:

Havia de arrancar ao Sol candente e vivo
o motivo
daquela escandalosa gargalhada
à pequenez humílima da Terra.

Ícaro pôs o olhar no Espaço infindo,
no momento em que o Sol – fiel da eterna balança –
pende, aos poucos, descansa
na concha vesperal, em que a Terra se doura.

O dia estava lindo.
A tarde fez-se linda e encantadora,
e Ícaro foi subindo, foi subindo...

E, enquanto o herói subia
para quebrar ao sol os ígneos raios,
entardecia, pouco a pouco, entardecia.
O dia
tinha, um sobre o outro, os seus agônicos desmaios.

Mas, na loucura de subir, nem vira
na cega aspiração com que ascendera,
que as suas asas eram de mentira,
eram asas efêmeras de cera.

A tarde estava linda.
No braseiro do Ocaso, ao longe, ainda,
ruborejavam dois ou três milhões de brasas.
Ícaro, lentamente
e ousadamente,
foi procurando o Poente,
com a incerteza hostil daquelas asas.

O Sol, que ia baixar às paragens tranquilas,
antes de libertar, em lúcida revoada,
os passarinhos brancos das estrelas,
notou a temerária, intrépida escalada
daquelas asas novas.

E, para dissuadi-las
de novas experiências, de outras provas,
mandou um dos seus raios derretê-las.

E deu-se aquela queda desastrada
sob o sorriso ingênuo das estrelas
que abriam as pupilas…

E foi-se o sonho mentiroso e pícaro,
que o sol inflama, o sol derrete, o sol condena
a diluir-se no oceano.

Efêmeras e eternas asas de Ícaro,
imagem dupla do Desejo humano.

A cera dessas asas redentoras,
frágeis como uma antena,
asas de pousamouras,
não se diluiu no mar, caiu no seio
das gerações futuras!

Cera das asas de Ícaro! Semente
das grandes Aventuras!
Gota que fez a fonte e originou o veio
que vai dar ao estuário do Porvir…

Ícaro voa ainda. Triunfalmente,
continua a subir.

Continua a subir, em voo suave,
isócrono, consciente.

Na glorificação tranquila da Aeronave,
Ícaro ressurgiu definitivamente.

Agora, o próprio Sol, na Realidade
daquele desafio vingador,
glorifica e eterniza a efêmera vaidade
do Primeiro Voador.


In: FONTES, Hermes. Poesias Escolhidas. Com um Pequeno Retrato de Hermes Fontes por Oliveira e Lima. [Rio de Janeiro]: Epasa, [1944]. p. 112-117.

Hermes Fontes nasceu em Boquim, SE (1888) e faleceu no Rio de Janeiro, RJ (1930). Formado em direito (1911), foi poeta, caricaturista, jornalista, funcionário público. Mais sobre ele aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hermes_Fontes.

Nota: Atualizei a grafia para a atualmente em vigor no Brasil; conservei a pontuação original, mantendo também o uso de maiúsculas em certos termos, de acordo com a edição consultada.

Santarém, PA, 20/7/2017. Leia e curta também no Wordpress.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O Poeta-Operário [poema de Vladimir Maiakovski]

O POETA-OPERÁRIO

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução de Emílio Carrera Guerra

Grita-se ao poeta:
“Queria te ver numa fábrica!
O quê? Versos? Pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem.”
Talvez
ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez
sem chaminés
seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os aradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó!
(1918)


In: MAIACOVSKI, Vladímir. Antologia Poética. Estudo biográfico e tradução de E. Carrera Guerra. 2. ed. Rio de Janeiro: Leitura, [ca. 1965]. p. 146-147.

Vladimir V. Maiakovski (1893-1930), artista e revolucionário, foi um dos principais nomes da literatura russa no século XX. Mais sobre ele aqui:

Santarém, PA, 18/7/2017. Leia e curta também no Wordpress.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Lusia [poema de Julius Balbin]

LUSIA
Julius Balbin (1917-2006)
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Ela era minha vizinha
antes da guerra –
e aos catorze anos
eu em segredo sonhava com ela,
enamorado de seus
negros olhos ardentes
e sua voz de veludo
cheia de amor.

E nada resta dela
além de sua roupa rasgada
e flocos de sangue
que a terra absorve.

Porque ela teve a audácia
de dirigir a palavra a um jovem guarda da SS,
o chefe do campo de concentração
ordenou
lançá-la
na jaula
de seus amados cães assassinos.

Em poucos minutos
sua carne foi devorada
e seus ossos quebrados,
e nada mais restou
além de minhas lembranças
e lágrimas
absorvidas pela terra,
que nós ambos dividimos
com os assassinos
humanos e caninos.

Ela era minha vizinha
antes da guerra…
com seus
negros olhos ardentes
e voz de veludo
cheia de amor.

1980
BALBIN, Julius. Lusia. In: Imperio de l’ Koroj: Du Poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 162-163.
O autor:Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto, inglês e polonês.
Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

sábado, 21 de janeiro de 2017

Poema sem Título [Charles Simic]

POEMA SEM TÍTULO
(Poem Without A Title)
Charles Simic
Tradução de Júlio César Pedrosa
Pergunto ao chumbo:
Por que te deixaste
Converter em bala?
Esqueceste os alquimistas?
Abandonaste a esperança
De converter-te em ouro?

Ninguém responde.
Chumbo. Bala. Com nomes
Como estes
O sono é longo e profundo.

Traduzido da versão espanhola de Isaías Garde, a qual junto com o original inglês está disponível aqui: http://zoonphonanta.blogspot.com.br/2017/01/charles-simic-poema-sin-titulo.html.
O autor: Charles Simic é um poeta estadunidense nascido em Belgrado, Sérvia, em 1938. Emigrou com a família para os EUA em 1954. Mais sobre ele aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Simic.