segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Anacronismo magiar

Coisa que (ainda) muito me espanta é ver pessoas instruídas dizendo coisas absurdas, principalmente anacronismos, isto é, ideias e conceitos fora de seu contexto histórico. Se gente que estudou nas melhores escolas brasileiras diz coisas que tais...

Numa TV do tipo news, um conhecido empresário brasileiro, filho de húngaros, dá entrevista sobre sua vida e profissão. Diz que seu pai chegou ao Brasil após a II Guerra Mundial e só falava húngaro e alemão, pois lá “a segunda língua não era o inglês, mas o alemão”, como ele sabiamente nos informa. Nosso empresário de sucesso acrescenta que, além do português e do inglês, fala também húngaro, que aprendeu em casa.

Não vou comentar que ele diz ser o húngaro um idioma que “não tem utilidade nenhuma, falado por 11 milhões de pessoas, 10 milhões delas na Hungria”.

Húngaros já foram laureados 12 vezes com o Prêmio Nobel, sendo 1 deles o de Literatura. Se o húngaro é inútil, como afirma nosso célebre amigo, que dizer de línguas com menos falantes, como o estoniano, o letão ou o frísio? E as línguas indígenas brasileiras? As australianas? As de Papua Nova Guiné? As da África?

Prefiro o personagem José Costa do romance Budapeste, de Chico Buarque, o qual diz que “o húngaro é a única língua que o Diabo respeita”. Uma saída mais esperta – acho eu.

Mas o que me interessa aqui é outra coisa.

O inglês só se tornou este fenômeno que conhecemos após a II Guerra; até então, apesar do poderio do Império Britânico e da crescente dominação político-econômica dos EUA, a língua inglesa era bem menos influente. O francês era a língua da diplomacia e da cultura; regionalmente, outras línguas exerciam as mesmas funções, como o alemão na Europa Oriental e Bálcãs.

Não se tratava de capricho. Não tinha sido uma escolha por meio de plebiscito, com a disputa entre inglês e alemão e vitória deste idioma. Não foi resultado de grupo de trabalho ou medida provisória do Ministério da Educação da Hungria. A explicação vem da história.

Até a I Guerra Mundial, a Hungria fez parte do Império Austríaco, eufemisticamente conhecido como Império Austro-Húngaro (que de húngaro tinha pouco ou nada, pois era só austro, dominado pelos Habsburgos de Viena). O alemão austríaco era a língua do governo, da administração, do comércio e da indústria, da instrução, da ciência, das discussões no parlamento. No âmbito da Áustria-Hungria, todas as pessoas instruídas falavam alemão, não importando sua origem étnica.

Não era por outro motivo que um tcheco chamado Franz Kafka escrevia em alemão, e não em tcheco (Boêmia, Morávia e Eslováquia também eram parte do Império da Áustria).

Por muito tempo o alemão foi a segunda língua dos húngaros instruídos. Não creio que o deslocamento da Hungria para a órbita da União soviética e o crescente prestígio do russo junto ao governo e a intelligentsia dos países da Cortina de Ferro tenham mudado muito isso; o inglês como segunda língua é coisa recente, e na Hungria surge, como em outros lugares, há uns 25 anos, após a queda do comunismo.

Falar em inglês como segunda língua num contexto em que isto não seria possível é um grande, um tremendo anacronismo. Quem ouve nosso empresário dizendo tal coisa (ainda que tenha saído meio sem pensar) acha que naquela época havia opções e os húngaros resolveram ir contra a tendência do mundo livre!

Não duvido de que logo apareça um sabichão dizendo que a correspondência diplomática entre egípcios e hititas nos séculos XIV e XIII antes de Cristo era feita em acadiano, com escrita cuneiforme e suporte de tabuletas de argila, apenas porque nas chancelarias de Tebas e Hattusa não havia quem soubesse inglês. Ou que a expansão do latim pela Europa Ocidental, com o posterior surgimento das línguas neolatinas, ocorreu porque os gauleses, francos, iberos e lusitanos achavam o inglês muito difícil...

Santarém, PA, 26/9/2016.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O beijo segundo Cyrano de Bergerac

Um beijo? Mas que vem a ser um beijo ao certo?
É um juramento feito um pouco mais de perto,
É uma confissão de amor, que bem depressa
Queremos confirmada. O beijo é uma promessa,
É um segredo que toma a boca pelo ouvido,
Momento divinal, que faz como um zumbido
Caricioso de abelha. O beijo, meu amor,
É uma comunhão, tendo gosto de flor,
Maneira deliciosa e maneira inebriante
De haurir-se todo o aroma a um coração amante,
E de gozar-se uma alma, à flor de uns lábios quentes.

Edmont Rostand, Cyrano de Bergerac. Ato III, Cena X. Tradução de Ricardo Gonçalves.

In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia., [1921]. p. 104.

Santarém, PA, 23/9/2016.

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Inveja maravilhosa

De acordo com alguns comentadores progressistas e safos das redes sociais, muitas das críticas aos gastos elevados e outros problemas da Olimpíada de 2016 são de paulistas invejosos da realização dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro.
Será?
Sou suspeito para opinar, pois sou paulista e crítico da realização de eventos desse tipo; creio que os esforços humanos e financeiros do país devem convergir para outros fins de que estamos mais necessitados.
Não precisamos de megaeventos. Precisamos de melhores escolas, melhor saúde, saneamento e investimento em ciência e infraestrutura.
Não quero medalhas. Quero que crianças e jovens saibam matemática, leiam e escrevam com fluência e compreendam a evolução das espécies.
Segundo esses formadores de opinião de caixas de comentários, se alguém critica a Rio 2016, só pode ser paulista!
Portanto, ou os paulistas são mais numerosos do que se pensa, ou muita gente no Brasil tem em si - para seu infortúnio - um pouco de paulista... e não sabe!
Ou (o que é o mais provável) tais críticas nada têm que ver com o bairrismo nojento de que ainda não nos livramos - e que parece ter-se fortalecido nos últimos tempos.
Santarém, PA, 22/8/2016.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Acidente argentino

Uma jornalista da TV Globo News disse que o cineasta Héctor Babenco, recentemente falecido, era brasileiríssimo, e só “nasceu na Argentina por acidente”.
Quer dizer que nascer na Argentina é acidente?
Aguardo há tempos que os defensores do “politicamente correto” se manifestem contra o preconceito de nossos meios de comunicação contra a Argentina e seu povo. Se não se aceitam comentários ou gracejos desse tipo contra outros grupos, por que aceitá-los quando se referem aos argentinos?
E há ofensas até piores do que esta. Dois exemplos:
  • Em outra TV do tipo news, um jornalista e apresentador, ao referir-se a uma famosa chef argentina radicada no Brasil, e que seria entrevistada por ele, disse que “ela é argentina MAS é gente boa”. Ato falho?
  • Num programa reality show de atendimento médico de urgência, médicos conversam enquanto cuidam de um paciente; a conversa referia-se a algum tipo de procedimento médico: “Está brincando! Duvido que isso tenha sido inventado por um argentino! Já viu alguma coisa boa vir da Argentina?”
E tudo transmitido pela TV!
Esse tipo de preconceito é inculcado em nossa população o tempo todo – e não se trata apenas de rivalidade esportiva.
Dizem que é esta a diferença entre brasileiros e argentinos: enquanto dizemos que Deus é brasileiro, os portenhos TÊM CERTEZA de que Ele NÃO É argentino.
Está explicado, pois!
Santarém, PA, 29/7/2016.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Complexo canino

Este não tem complexo nenhum: sabe exatamente o que quer!
A mídia brasileira e seus colaboradores continuam a ser as “delícias do gênero humano” que tão bem conhecemos!
19 de julho. TV Globo News. Assunto: bloqueio do aplicativo Whatsapp por uma juíza do Rio de Janeiro. Um “especialista em tecnologia” diz que a juíza agiu de modo “infantil e com complexo de vira-lata”. Por quê? Porque, segundo o “especialista”, ela reclamou de que recebeu, da empresa responsável, uma resposta em inglês. A meritíssima juíza tivera um chilique, um mimimi de quem não sabe inglês!
Ou seja, seguindo-se o raciocínio de nosso “especialista”, os gringos falam conosco em inglês e nós temos a obrigação de saber sua língua; quem reclama disso é um vira-lata.
Conclui-se então o Brasil é um grande canil (até rima!), pois creio que apenas 1% de nossa população sabe inglês de modo satisfatório para compreender falantes dessa língua e fazer-se compreender por eles; os demais são vira-latas, tomba-latas, rasga-sacos ou quaisquer outros espécimes caninos de raça não definida e falantes apenas dessa língua canina chamada português. (Eu, por exemplo, devo ser um vira-lata de porte considerável – não vou revelar aqui meus 115 kg bem mal distribuídos – ops!: assim como o notório coronel Ponciano de Azeredo Furtado, quase destronco toda e qualquer balança na qual subo!)
Não entremos no mérito da questão jurídica: não importa se o Estado pode ou não obrigar empresas de comunicação a fornecer dados de seus clientes, ainda que seja para fins de investigação policial ou judicial. O “especialista” errou feio em sua análise da conduta da juíza, pois é evidente que o conceito de complexo de vira-lata usado por ele está malandramente invertido.
Vejamos.
O complexo de vira-lata diz respeito a uma espécie de baixa autoestima, que levaria o brasileiro a sentir-se inferior a outros povos e a tentar emulá-los, imitá-los ou macaqueá-los para ser como eles – e ser aceito em seu clube. Daí a negação de tudo o que é nacional ou nativo, tido por inferior em comparação com o que vem de fora: tudo o que é nosso é inferior, por isso devemos deixá-lo de lado e assumir os modos estrangeiros. Nada podemos contra os gringos, e eles sempre sabem o que é melhor para nós.
No caso de algum revés – como a célebre derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950 – a causa seria esse complexo, pois, apesar das belas vitórias anteriores, em momentos decisivos os brasileiros já se considerariam derrotados por antecipação, conscientes de que jamais venceriam.
Eis portanto o complexo: somos reconhecidamente inferiores e não somos capazes de vencer. Ou, por outra: “A gente joga bola e não consegue ganhar”.
O menosprezo de nossa língua em favor do inglês ou qualquer outra é sintoma desse complexo; o mesmo com respeito a nossa história, nossa literatura, nossa comida – a brasilidade, enfim.
Não prego aqui um comportamento nacionalista ou xenófobo – longe disso!
Mas a atitude da juíza, ao reclamar de uma resposta institucional em inglês emitida pelo Facebook/Whatsapp, não tem nada de complexo de vira-lata, muito pelo contrário: ela exigiu tratamento respeitoso e adequado por aquela empresa estrangeira, que deve, no Brasil, utilizar em seu trato com as autoridades e clientes/consumidores a língua nacional e oficial, o português.
Sua atitude seria indício do complexo de vira-lata se ela tivesse silenciado diante da atitude grosseira (ou apenas automática) da empresa, tendo-a por normal: “Eles estão com a razão; se não sei a língua deles a culpa é minha”. Nada disso!
E o “especialista” considerou a reclamação dela um sintoma de vira-latismo.
Que sina a nossa!
Por décadas o complexo de vira-lata foi a justificativa de nosso atraso: éramos inferiores e nada conseguíamos de notável por causa disso, não tínhamos futuro, não éramos civilizados nem tínhamos direito a um lugar no concerto das nações. Nadávamos, nadávamos e morríamos na praia! Merecidamente. Um discurso de “inferioridade natural” (e de origem racial) mantinha contido, quieto, “pacificado” o nosso povo, sem esperança de um futuro melhor, pois não tínhamos direito a ele, não éramos capazes de atingi-lo.
E a fina flor de nossa brasilidade, por meio de seus “especialistas”, nos prestava o grande favor de mostrar nossa incapacidade e nos punha no devido lugar.
As coisas foram mudando. Aos poucos mostramos – inclusive a nós mesmos – que somos tão capazes quanto os demais povos. Não inferiores, tampouco superiores. Apenas iguais, apesar de nossas dificuldades. Também podemos contribuir para a civilização mundial. Fim do complexo!
Será?
Mas assim não pode, assim não dá, assim não é possível!
E a reação logo veio. O complexo de vira-lata se transformou, seu significado se alterou.
Agora, querer que uma instituição brasileira possa peitar qualquer empresa estrangeira é indício de complexo de vira-lata. Exigir tratamento de igual para igual é complexo de vira-lata. Pedir que os gringos, no Brasil, falem nossa língua é febril complexo de vira-lata. Pensar em resolver nossos problemas por nós mesmos é indicativo de complexo de vira-lata no mais alto grau!
Antes queríamos, mas não conseguíamos; agora conseguimos, mas não podemos.
Éramos um vira-lata magro, faminto, sarnento e de rabo entre as pernas, enxotado de cá para lá pelas ruas do mundo; agora que nos tornamos um cão de fila grande, robusto, decidido, nos puseram coleira, focinheira e correntes.
A inversão de sinal do complexo de vira-lata é mais um indicativo de que, no Brasil, as coisas mudam para que tudo continue como sempre foi.
Santarém, PA, 28/7/2016.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Amor-perfeito [poema de Laurindo Rabelo]

Amor-perfeito (Viola tricolor L.) - Fonte: https://fiorebellafloresecestas.wordpress.com
AMOR-PERFEITO
Laurindo Rabelo (1826-1864)
Secou-se a rosa… era rosa;
Flor tão fraca e melindrosa,
Muito não pôde durar.
Exposta a tantos calores,
Embora fossem de amores,
Cedo devia secar.
Porém tu, amor-perfeito,
Tu, nascido, tu afeito
Aos incêndios que amor tem,
Tu que abrasas, tu que inflamas,
Tu que vegetas nas chamas,
Por que secaste também?!
Ah! bem sei. De acesas fráguas
As chamas são tuas águas,
O fogo é água de amor.
Como as rosas se murcharam,
Porque as águas lhes faltaram,
Sem fogo murchaste, flor.
É assim, que bem florente
Eras, quando o fogo ardente
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo
Te orvalhou naquele vaso
Que já foi meu coração.
Secaste, porque esse pranto
Que chorei, que choro há tanto,
De todo o fogo apagou.
Triste, sem fogo, sem frágua
Secaste, como sem água,
A triste rosa secou.
Que olhos foram aqueles!
Quando eu mais fiava deles
Meu presente e meu porvir,
Faziam cruéis ensaios
Para matar-me. Eram raios,
Tinham por fim destruir.
Destruíram-me: contudo
Perdoo o pesar agudo,
Perdoo a pungente dor
Que sofri nos meus tormentos,
Pelos felizes momentos
Que me deram nesta flor.
Ai! querido amor-perfeito!
Como vivi satisfeito,
Quando te vi florescer!
Ai! não houve criatura
No prazer e na ventura
Que me pudesse exceder.
Ai! seca flor, de bom grado,
Se tanto pedisse o fado,
Quisera sacrificar
Liberdade e pensamento,
Sangue, vida movimento,
Luz, olfato, sons e ar
Só para ver-te florente,
Como quando o fogo ardente,
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo,
Te orvalhou naquele vaso
Que já foi meu coração.
In: RABELO, Laurindo José da Silva. Obras Completas: Poesia, Prosa e Gramática. Organização, introdução e notas de Osvaldo Melo Braga. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1946. (Livros do Brasil, 8). p. 289-291. Ortografia atualizada.

O autor:
Laurindo José da Silva Rabelo, médico, militar e poeta brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 8 de julho de 1826 e faleceu na mesma cidade em 28 de setembro de 1864. Foi seminarista, mas não chegou a ordenar-se. Formou-se em medicina e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, servindo no Rio Grande do Sul; foi também professor da Academia Militar. Mais sobre Laurindo Rabelo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Laurindo_Rabelo.
Santarém, PA, 18/7/2016.

O Escudo de Minerva [poema de Humberto de Campos]

A deusa Atena ou Minerva. Fonte: http://www.turismogrecia.info
O ESCUDO DE MINERVA
Humberto de Campos (1886-1934)
Mão nervosa e febril, Fídias sonha e trabalha.
A alma paira, genial, nas alturas serenas,
E o cinzel, a ranger, morde a matéria, e talha
A figura imortal da Senhora de Atenas.
Trabalha. A fronte, o braço, a alta cabeça, o escudo,
E a petrina, a guardar dos seios o tesouro,
Surgem, formando a deusa, hirta e solene; e tudo
É talhado em marfim, cortado em pranchas de ouro.
E a estátua, um dia, enfim, no alto templo descansa;
O peito colossal quase ofega e respira.
E, apinhada a seus pés, sob a base da lança,
A helênia capital, sábia e inteira, delira.
Todo o que olha, em respeito, aqueles trinta e nove
Pés de altura de Atena, evoca os tempos, quando,
Assim bela, ao surgir da cabeça de Jove,
Pela glória da Hélade andara batalhando.
O gesto, a calma, o olhar, a firmeza do porte,
A face do broquel e a lança em que se apoia,
Dizem bem quem levou o estrago, a angústia, a morte,
Pelo braço do grego, às falanges de Troia.
A audácia de Patroclo e a doida valentia
Da heroica multidão que os impérios invade,
Vieram da proteção e da Sabedoria
Da Senhora Imortal da Grécia e da Cidade.
E ei-la, ali, bela e só, como vinda doutra era
Ao báratro sem fim das misérias terrenas,
Para ver, e abençoar com a presença severa,
As conquistas da Grécia e a grandeza de Atenas.
O lábio que inspirara o discurso de Ulisses
E da nau de Jasão dera o modelo novo,
Era ali, belo e moço, austero e sem meiguices,
Mas, na sua mudez, a beijar seu povo.
De repente, porém, olhando o escudo sobre
O alvo pulso de Atena, alguém, afeito a insídias,
Espantado, e a gritar, à multidão descobre,
Na face de broquel, a figura de Fídias.
O soberbo escultor, na alta febre que o inspira,
No seu orgulho hostil, de artista intemerato,
Mão tremente, olhar louco, em delírio, esculpira,
No divino broquel, seu humano retrato.
***
Assim, ó sonhador, que te acolhes na dobra
Do amplo manto de Apolo, e erras, em sonhos, a esmo,
Deixa sempre, insolente, impresso na tua obra,
Um traço da tu’alma e um pouco de ti mesmo.
Esquece, ao trabalhar, as humanas perfídias,
Mostra o teu coração, esculpe a tua ideia:
Como, outrora, imortal, o retrato de Fídias
Gravado no broquel de Palas Ateneia!
In: CAMPOS, Humberto de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc., 1951. (Obras Completas, 1). p. 215-217. Ortografia atualizada.

O autor:
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (atual Humberto de Campos), Maranhão, em 5/10/1886 e faleceu no Rio de Janeiro em 5/12/1934. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Mais sobre o autor: https://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos.

Santarém, PA, 16/7/2016.

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